Um crush na pandemia

 

Um crush na pandemia

 

 

          Ela se preparou como nunca pra o encontro com um homem que conheceu no Tinder, site de namoros do século XXI que hoje, mais do que nunca, tem sido o recurso mais que previdente para esses tempos de violência e sobretudo, de cuidados redobrados por conta da pandemia pelo novo corona vírus, o Covid19.

          Ainda eram duas da tarde e ela já estava de cabelos escovados, as unhas feitas no Perfect Style com direito a uma depilação caprichada pra não ter arranhões na hora H.

          Vanessa era despachada e certamente entendia que o convite daquele homem era significativo de afinidades, pelo menos virtuais, e sinal de um encontro importante, apesar de todos os riscos de contágio nesses tempos de pandemia.

          Supunham, porém, que estando sem contato interpessoal dado o isolamento social a que vinham se submetendo, estariam assim sem riscos de transmissão do corona vírus. Ela trabalhando em casa, fazia parte do RH de uma empresa estatal e ele, o pretendente, passava os dias recluso em uma fazenda entre vacas e garanhões.

          Os contatos entre eles eram virtuais, via seus smartphones de última geração, lambuzados por lânguidas palavras, suspiros e excitações que adentravam a madrugada e que acabou por tornar esse encontro ainda mais ansiado.

          Nathan era um administrador de empresa formado pela Universidade Rural de Viçosa e atuava diuturnamente na propriedade da família no interior da Bahia. Desdobrava-se no trabalho e em meio à sua rotina rural ansiava encontrar alguém que ocupasse o lugar deixado por um amor não correspondido. Atualmente vinha construindo uma imagem nos sites de namoro como um homem “sério” e, quiçá, disposto a compromissos mais sérios, além de um encontro casual. Essa mulher que se apresentava no Tinder, de gostos refinados, poderia preencher o vazio de suas noites rurais.

          Marcaram de se encontrar às oito da noite num bistrô no bairro da Barra.

Antes do horário marcado Nathan já ocupava a mesa e tinha devorado ansiosamente o couvert servido e, enquanto tamborilava a mesa viu uma mulher assomar a porta do bistrô. Vanessa adentrou o salão esfuziante, calçando um sapato estilo plataforma usando um vestido preto de malha colado ao corpo deixando ver suas coxas delineadas. Nathan suspirou fundo e no ambiente intimista meia luz e regado a um Chardonnay com salmão defumado e sorvete de chocolate, nem viu a noite passar.

          Tudo corria bem e eles, após pequenos enlaces digitais à mesa, já ensaiavam um beijo fortuito em frente ao restaurante bristô numa rua mal iluminada.

          Combinaram de ir ao apartamento dele. Lá chegando, Nathan tentava avançar um pouco mais nos amassos e carícias com certa esquiva de Vanessa. Em dado momento dos amassos Nathan, afoito,  avançou a mão sob o vestido de Vanessa e rapidamente a retirou, pálido. Um volume pouco usual se apresentava em suas mãos, o que o deixou paralisado no meio da sala. 

Renato languidamente perguntou-lhe;

-Não gostou do material meu amorrr?

Sua cartilagem cricóide, o gogó, denunciava a Nathan a opulência do material apreendido.

          Hoje, passados quase quatro meses, Vanessa desfila nas esquinas pouco iluminadas da Pituba, e Nathan, o escolhido por deus, encontra-se frente à janela da sala da casa de fazenda, olhar vago, distante, -barba cerrada, por fazer. Sobre a mesa de canto, caixas de um coquetel de um remédios tarja preta, antidepressivos. Parece manifestar alguns espasmos musculares às vezes, noutras sequer pode ouvir falar de namoros ou o chamado do seu vaqueiro para cruzamentos de vacas e garanhões.


Wagner Bomfim

08/08/2020

 P.S. A transhomofobia matou 329 pessoas no Brasil em 2019. São Paulo e Bahia lideram o ranking de estados mais criminosos contra a população LGBT +

Fonte: ONG Transgender Europe.

Fotos: diariode Pernambuco

           diariodocomercio.com

           brasildefato.com


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  1. Adyla Ramos em 6 x 1
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