O pedido a Iemanjá

Pensando em dar uma chegada na casa da Colônia dos Pescadores do Rio Vermelho no dia 02 de fevereiro, ele foi dormir logo cedo, pois havia a intenção de ver a alvorada com os fogos de artifício e tudo o mais que envolvia o místico dia dedicado a   Iemanjá, a Rainha das Águas. 

Lá para as tantas da noite começou a se agitar na cama. A mulher, já acostumada com seu modo de dormir, virou-se entediada para o lado, amassando de vez o rosto no travesseiro manchado de base e rímel. 

Ele rolava de um lado para o outro com as mãos apertando a barriga e seguia seu onírico sono.

                   …………………

— Toc, toc, toc! 

Assim se ouvia alguém estalando os dedos no veio seco da madeira da porta da casa. 

Não esperava nenhuma visita assim, rezava para não ser Abelardo com sua cara de fuinha chamando-o para tomar uma naquela altura do campeonato!

Toc toc toc ! 

Será aquela agente comunitária do bairro lhe cobrando para não colocar água nos caqueiros das plantas no meio dessa dengue dos infernos ?

Geraldo contorcia a barriga sob os ouvidos atentos da mulher, meio enciumada, desconfiada que só, pois até do sonho ela era capaz de questionar!

Toc, toc, toc!

Tudo que ele temia era o fiscal da receita federal, com seus dentes afiados a perseguir o seu novo salário tão mínimo ! Ou será os “homi” a procura de um bagulho? Ou terá sido delatado como cúmplice da roubalheira bozolóide e a Policia Fascista, digo, Federal, já o tinha como suspeito ? Vai saber!

                       …………………

A noite de Geraldo assim passou, tendo o mesmo propiciado  um significativo aumento do efeito estufa, pelo menos no que cabia entre as quatro paredes do quarto, cercada por certa frustração em meio a repetidas náuseas da sua companheira. 

                ……………………

Botou uma bermuda branca , uma camisa polo da mesma cor e calçou uma sandália de couro cru e assim todo fatiotado Geraldo saiu antes do sol nascente.

Mariazinha lhe acompanhava pacientemente e embora não fosse filha de santo, o sincretismo e a fé lhe estimulava a ofertar flores e perfumes que a vaidosa dona das águas, sabe-se, tinha adoração.

Até chegar na Colônia dos Pescadores, Geraldo tomou(lá ele) dois milomes e uma pitú com limão, mesmo sentindo a barriga roncar.

O sol já batia na cabeça, no alto,  quando desceram a rampa que dá acesso à praia e desse modo permitiu a Mariazinha  jogar  suas flores, uma a uma na beira da praia. Cumprida com a devoção, ela lhe pergunta:

— Você não vai dar seu presente Geraldo?

Ele de pronto se lembra e  tira do bolso da bermuda um frasco de Alfazema e o joga contra as fracas ondas da praia do Rio Vermelho que solenemente a devolve na areia. Assim ele o fez, por uma, por duas, três vezes. 

A barriga de Geraldo àquela altura parecia guardar um câmara de ar de caminhão de tão distendida. Ele, lá na beira da praia, sentindo que corria um sério risco, apanhou o frasco de Alfazema e como um campeão de lançamento de dardos a lançou a muitos metros de profundidade do mar, ao tempo que soltou o impropério:

— Vaaaiii poorrra!

— O que é isso, Geraldo? Tinha que esperar as sete ondinhas. Iemanjá vai lhe castigar!

Feito isso Geraldo saiu às pressas , subiu forçosamente a escadaria e correu até a foz do Rio Lucaia que deságua no Largo da Mariquita. Longe se via uma bermuda, antes branca, salpicada de manchas abrindo passagem na multidão.

Soube depois por um amigo, pescador, que disse ter visto uma sereia se picando mar adentro, meio assustada. Não  se sabe se com o peso dos pe(d)idos  de Geraldo ou com a grande diarreia que se seguiu, ali no estuário do Rio.
Diz dona Embasa, que a contaminação do Rio Vermelho (Lucaia) não existe, que aquele lodinho escuro que corre todo santo dia, ou se preferir, todo orixá dia, para o seu mar foi um evento atípico ocasionado por uma falta de fé!

Ou será por excesso de fezes?

 

Wagner Bomfim 

02/02/2024

Salve Iemanjá, a Rainha do Mar!

 

Tags:

5 1 voto
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest

10 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Cacilda
Cacilda
2 anos atrás

Vc não existe !
🤣🤣🤣🤣

Théo Kôkôa
Théo Kôkôa
2 anos atrás

Geraldo deve ter um peixe na Embasa

Neci Matos Soaeea
Neci Matos Soaeea
2 anos atrás

É genial!!

Marirone
Marirone
2 anos atrás

Geraldo que se cuide kkk

Franklin Passos
Franklin Passos
2 anos atrás

“Costumamos dizer que na hora de entregarmos algo para o orixá, vale aquilo que o coração tem. Na ausência de qualquer elemento, como o alimento, a bebida, a vela ou a flor, vale a prece, a intenção e o coração. A energia está aí.
De seus seios volumosos nascem as águas do mar e as águas doces. Nasceu num rio e vive no mar . Através da água, ela dá saúde, fartura e riqueza a todos, pois, sem água, o mundo acaba.”

(Awo, o mistério dos Orixás, escrito por Gisèle Omindarewá Cossard).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comentários

  1. Adyla Ramos em 6 x 1
10
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x