Um palacete em ruínas

O recente anúncio de redução de treze milhões de reais dos recursos destinados pelo Governo Federal através do Ministério da Educação para a simples manutenção da UFBA gerou apreensão em toda a comunidade acadêmica e ao alunado, recém ingresso através do Sisu 2024.

O corte de verbas aprovado pelo governo Lula e pelo congresso, LOA, vai na contramão das necessidades da educação, porém o próprio congresso ampliou  os valores destinados para financiar as eleições municipais desse ano no total de 4,9 bilhões de reais.

O governo dito popular assume sua face neoliberal privilegiando parte do seu orçamento a outros setores, tais como a desoneração do agronegócio, a liberação de emendas parlamentares e o financiamento  público absurdo das eleições municipais, depauperando assim a educação e a cultura, onde se insere o vasto patrimônio arquitetônico residual da UFBA.

Nela, o estado físico e funcional de suas unidades é lastimável, degradante. Exemplo disso é o palacete construído em meados do século XIX no Corredor da Vitória, de arquitetura eclética, elaborado pelo italiano Rossi Baptista, cuja propriedade da família Vilas Boas desde 1920 foi incorporada ao patrimônio federal por Edgar Santos em 1956. Esse imóvel ainda hoje resiste, fruto de antigas lutas estudantis por ocupação e manutenção da casa como Residência Universitária a abrigar estudantes carentes. Hoje o prédio se apresenta com  infiltrações nas paredes, danos em seu assoalho, instalações hidráulicas precárias com a parte elétrica sob riscos de circuitos e incêndio,  além do risco iminente de queda de forros da cobertura.

A despeito do tombamento pelo IPAC em 2021 e destombado três dias depois pelo prefeito Bruno Reis, esse mix de “promoter” cultural e ponta de lança do mercado imobiliário, não temos notícia da judicialização prometida pela UFBA(1) para se contrapor a esse decreto que negou o próprio parecer favorável pelo tombamento da  Fundação Gregório de Matos.

As hienas rondam o Corredor da Vitória, afiam seus dentes para usurpar a área que se debruça para a beleza da Baía de Todos os Santos, vez que consideram inadequado aquele espaço para estudantes pobres, mas que podem permitir lucros exorbitantes com suas vendas para novos-ricos higienistas do século XXI. Estúpidos, confundem nobreza com riqueza(1).

Nem o antigo governo Rui Costa, de há muito tempo, nem a União se posicionam com vistas a preservar, qualificar e requalificar o palacete do Corredor da Vitória, patrimonio publico inestimável. Da Prefeitura de Salvador o que vemos é aterrador em termos de ações relacionadas ao ambiente e a história da cidade.

Assistimos Salvador transformar-se num grande bloco de concreto e cimento sem alma, sem significado, sem importância. História mesmo só uns arremedos de fachadas de prédios isolados no Pelourinho, para turista ver, fotografar e ir embora.

Mas, repito aqui; cultura para quê?

 

Wagner Bomfim

03/03/2024

1- Ordep Serra . Palestra na Academia de Letras da Bahia.

P.S. Meu agradecimento a sociedade que me permitiu estudar e morar no Palacete da Vitória.

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  1. Adyla Ramos em 6 x 1
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