A mulher X o capital
E no princípio, Deus criou a mulher como ato poético para aplacar o tédio que seu semelhante homem expressava nos tempos em que habitava o Jardim do Éden.
Não havia etiqueta de preço, muito menos marca ou, como hoje se convive, com um algoritmo definindo a sua aquisição nas melhores casas do ramo, as bigtech do século XXI.
Lilith, primeira mulher, contudo, transgrediu as normas do criador e literalmente “rodou a baiana”, mandando Adão pastar, de “atoleimado e fraco” que ele era para seus ardentes desejos.
Assim, outra mulher, mais sujeita ao processo, foi ofertada para exclusivamente atender aos ditames do macho, porém com alteridade limitada, sem contrato, envolta em mistério. Creio que daí deva ter surgido a exploração e a precarização do trabalho feminino e a violência contra a mulher.
Lilith, Adão, Eva, uma vez expulsos, passam a ter um preço, para milênios depois seu corpo tornar-se uma mercadoria, avaliada, medida, interpretada.
O pecado original, modelo de negócio sutil, passou a valer mais e mais.
Milênios passados, hoje encontramos-la nas vitrines de todo o consumo, desde o automóvel de milhões que a mesma anuncia, à imagem digitalizada de corpo ideal a desfilar em toda e qualquer mídia.
Hoje, o Deus mercado, o capitalismo, pressupõe a mulher como objeto de consumo, seu corpo vendido como aparência, como poder, sucesso e felicidade para quem puder comprar, até a prestação.
São loiras, negras, amarelas ou morenas, que comungam de uma proposta de reinar nesse novo jardim do Éden, desde que acatem os princípios divinos, sem empoderamento real e sem autonomia.
Brigitte Bardot ousou transgredir esse mito. Enfrentou a fúria do capital, porém, recolheu-se antes que o viço da própria juventude se apagasse, dando um tapa na cara do mundo consumista, abalando as estruturas tanto da igreja cristã quanto das sociedades conservadoras.
A loira francesa disse não à precificação do corpo feminino, disse não estar à venda como moeda para sobreviver. Nas entrelinhas da encenação da vida, permitiu-se envelhecer, ser uma mulher comum, solitária como milhões, sem o capital a etiquetá-la.
A partir do filme “E Deus criou a Mulher”ela rompe com a lógica do capital permitindo-se cansar, ser autônoma, ser comum, de carne e osso, sem estar a venda.
Deus, tão imperfeito quanto irredutível e o capital tão permanente e reducionista vende imagens, contudo não pode vender a essência da mulher. As religiões aí estão, submetendo as mentes de homens e mulheres aos preços que o mercado estabelece como convém.
O pecado maior pode não ter sido comer o fruto, nos ilusórios Jardins do Éden, mas ter havido um preço acabado para as Lilith, para as Evas, Marias ou Brigitte.
Wagner Bomfim
28/12/2025

Quão verdadeiro você tao bem soube mostrar essa sociedade em q vivemos
🥰😘