Os Invisíveis
Era uma noite fria em Brasília quando cinco jovens atravessavam uma larga avenida, a W3Sul. Pararam diante de um ponto de ônibus. Ali, um homem dormia, embrulhado em papelão — como quem tenta se proteger do mundo com o que sobra dele.
Valendo-se do elemento surpresa, embeberam-lhe o corpo com álcool etílico e atearam fogo. Em minutos, a cidade assistia à transformação de um homem em tocha.
Chamava-se Galdino Jesus dos Santos, indígena Pataxó Hã-Hã-Hãe. Naquele dia — ironicamente o Dia dos Povos Indígenas — estivera na Praça dos Três Poderes reivindicando o que sempre foi seu: terra, dignidade, existência.
Anos depois, em pleno verão tropical, um cão vira-lata que circulava entre hotéis no centro de Florianópolis foi capturado por adolescentes. Pregos martelados no crânio, chutes, riso. O corpo cedeu antes da crueldade. Chamava-se Orelha.
Ambos os casos geraram comoção. Mas não a mesma.
Pelo cão, com justa razão, a sociedade se indignou. Identificou culpados, exigiu punição. Pelo indígena queimado vivo, o silêncio foi mais duradouro.
Entre marquises e calçadas, os sem-teto continuam sendo empurrados para fora do campo de visão. Pretos, pobres, mulheres violentadas — herdeiros diretos de um país que nunca rompeu com sua lógica escravista. São corpos que não geram luto público.
Orelha. Joca. Eles comoveram.
Os outros — os invisíveis — seguem morrendo fora do enquadramento.
São apenas os outros.
Wagner Bomfim
31/01/2026


O pior, o defensor dos canalhas circula como governador do DF envolvido nas falcatruas da república e os algozes encontram-se em altos escalões da república, como de costume!
Infelizmente é verdade…