O carnaval grisalho.

O carnaval grisalho

Ela pulava frevorosamente, sim é esta palavra mesmo, para atestar a alegria de Yara que estava dançando no carnaval do bloco Corujas. 

De abadá azulado, na mão uma mamãe sacode, espécie de bandeira toda cortada em fitas azul prateada e um boné na cabeça para enfrentar o calor da Avenida Sete de Setembro em pleno fevereiro de Salvador. Balançando a bunda para lá e para cá, ela parou de dançar quando o trio estancou à sua frente. Ouvia-se o rufar de tambores de outro bloco logo ali no início da Av. Joana Angélica e Praça da Piedade. Era o bloco de índios Apaches do Tororó, o terror dos blocos e para os Corujas que tinha predominância de mulheres, tanto pelo assédio quanto muitas vezes pela violência era um desassossego.

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A clínica de ortopedia e fisioterapia estava lotada em plena quinta-feira que antecedia o carnaval de Salvador. Uma senhora de cabelos um pouco grisalhos volta e meia se inquietava numa cadeira dura e de pouca ergonomia. Do outro lado da sala, um homem forte, com têmporas grisalhas, de tez morena, a olhava insistentemente. Não sei se a inquietude dela era algum problema de saúde ou o olhar insistente daquele homem que  ela tentava fugir. 

Ele então se aproximou e disse; 

  • Eu acho que a conheço!
  • Ahn? Tentou parecer surpresa, mas a voz masculina lhe penetrou fundo e ela teve até calafrios na espinha.
  • Sou Edson, tá lembrada?

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Enquanto Yara se recompunha do ritmo acelerado que o cantor impunha, ainda balançando o corpo, viu um índio com sua machadinha em punho puxá-la pela cintura e aprisionar seus lábios, e ela, sem oferecer resistência, viu-se descabelada dos pés à cabeça. Aí foram beijos e amassos além das cordas dos blocos para, ao fim, deixar um número de telefone escrito no abadá, cinco números marcando o destino de dois foliões.

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  • Édson Brucutu!!!?
  • Sim

Um sorriso se abriu em ambos os rostos, e ele logo sentou-se ao lado dela.

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Mas antes preciso dizer uma coisa; que aquele senhor moreno com alguns fios de cabelo branco nas têmporas nada tinha de violento.

Naquele carnaval passado, nos anos 80, ele costumava usar uma larga corrente no pescoço com aquela peça que dispara jatos de água no para-brisa do fusca, carro antigo da VW. Aquilo era um adereço que costumava fazer sucesso entre as mulheres na época. Agora, aqui para nós. Vá entender pra  onde se dirigia a libido feminina. Será que elas associavam aquela peça a alguma parte da própria anatomia? Fiquei aqui, intrigado, pensando!

  • Mas e você, por onde  andou esse tempo todo ? 
  • E você o que está fazendo ?

As duas perguntas ditas ao mesmo tempo se chocaram na sala, riram .

Eu tentei lhe telefonar, gastei todas as fichas da Tebasa – antiga telefônica  que usava fichas metálicas para completar uma ligação – quase nunca completava .

  • E você o que faz aqui ?

Yara não se fez de rogada, endireitou-se na cadeira ao mesmo tempo que uma dor lancinante lhe percorreu a coluna lombar em direção ao nervo ciatico. Precisava dizer que o tempo não passou, que estava inteira .

-Eu é que não vou dizer que estou com a coluna lombar desgraçada, ele vai pensar que estou velha, pensou Yara.

-Estou aqui acompanhando uma  amiga. Ela veio fazer fisioterapia. Dizia isso ao tempo que contraia a bunda pra lá e pra cá pra minimizar a dor na coluna.

  • E você ? Perguntou ela.

  Ah, menina. Eu torci o pé essa semana, mostrou o pé inchado. Vim fazer uma consulta. Vou perder o carnaval , disse rindo !

Ela ficou um pouco vermelha, mas uma certa umidade, em certas partes do corpo denunciava que amor que fica vai além de Itaparica .

  • Sr Edson!

A voz impessoal de uma secretária gordinha os trouxeram ao mundo pré carnavalesco de então. 

  • Me dê seu número pra gente se encontrar, tomar um café, bater um papo, falou. Alguma esperança se anunciou naquele instante, agora os telefones tinham nove números, poderia talvez ser diferente de décadas atrás -cinco números . 

– A não ser que você esteja casada, falou de forma desproposital. Não esqueci seu perfume até hoje disse, ensaiando um sorriso.

Yara sorriu, entrando no jogo da sedução, mas se conteve dando uma de fazer jogo duro.

Édson apanhou o telefone de Yara ao tempo que pensava. 

– Vixe , ela tá que dá um bom caldo. Tem aquele molho que eu tô precisando !

Agora, quase sozinha na recepção Yara passou a relaxar  os músculos do abdome e da bunda, esparramando-se na cadeira.

– E agora ? Nem vou entrar nessa porra de fisioterapia,  agora. Ele vai achar que estou inválida, que  não posso dar nem uma chave de perna nele( pra não dizer outra coisa ), destá!

Apoiou-se no braço da cadeira pra levantar, soltou um ai prolongado pra surpresa de outros grisalhos na sala e partiu em direção a rua. Yara parecia uma castanha, toda envergada, por conta  da coluna lombar, se arrastando pela rua. Já dentro do aplicativo  de transporte seu telefone celular tocou. Era uma foto de Édson Brucutu sem camisa. Yara ficou sem fala, boquiaberta, mexendo-se no banco de trás do carro pra estranhamento do motorista. Atendeu.

– Oi ! Tá tudo bem ? Sim, certo,  vou ver se dá pra ser segunda feira. Estou com uns trabalhos atrasados, mas vou te confirmar.

  • Não é possível que até lá eu não esteja boa, pensou. Logo agora que estou na pista!

Assim, assim, balançando a bunda pra lá e pra cá, com um molejo cadenciado, ela achava que poderia matar a fome de muitos anos.

A machadinha de Edson Brucutu aquela hora estava em pé.  Não via a hora de abater, digo, de reacender aquela fogueira que foi abandonada alguns carnavais  passados.

Segunda feira à tarde marcaram de se encontrar no Red River, longe da folia, vez que, um estava de pé inchado, a outra com dor no ciático limitando  a circulação.

Yara  transpirava ansiedade, Édson, então, nem se fala. Já  estava impregnado de perfume Malbec barato. Logo, estavam um diante do outro, revivendo as loucuras que fizeram naquele carnaval.

-Hum, que cheiro bom esse seu , disse ele. O que é?

Yara sorriu, mordeu o lábio inferior, passou a língua no lábio e jogou os cabelos pra o lado, insinuante. Édson olhava despudoradamente o decote da blusa de cetim de Yara que, vez ou outra, respirava fundo, fazendo com que os seios se projetassem ante seu olhar.

Assim ficaram, bebericando por algum tempo, até que ela disse que precisaria ir embora.

-Eu lhe levo gata…

Ela sorriu. Sabe-se que dai a alguns minutos, após um sinuoso trajeto, estavam num quarto de motel entre beijos, abraços e amassos.

Em dado momento ouviu-se Edson dizer: 

  • Esse seu cheiro de Arnica  está me enlouquecendo Yara. Ai, gostoso … faz mais!
  • Passe já esse creme 30 ervas pra cá !

Uma profusão de interjeições se somaram e acho melhor reduzir ( para deleite da censura).

Ai, ai não,  dizia Yara, bote aqui !

Ui, ui, eu vou …meu pé, bota aqui amor…

Ai… bote na minha… lombar, ai !

Vem meu brucutu venha, ui, ui, aaaii!

Não sei se a machadinha de Edson Brucutu estava em riste. Pronta pra escalpelar a loira do Red River.

O carnaval… grisalho, vai passar, vai passar amor !

 

Wagner Bomfim

22/02/2026

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