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Blog Cultura 7 de junho de 2026

“São João passou por aí?”


“São João passou por aí?”

Bastava a pergunta. Antes mesmo da resposta, um sorriso surgia no rosto dos donos da casa. As portas se abriam, os braços também. Quem se anunciava, deixava de ser um estranho, era alguém que trazia consigo o espírito de São João.

“Sao João passou por aí?”

A frase repetida mil vezes ecoava como licença para adentrar as casas, um pedido para ser acolhido e a oferta de bons sentimentos.

Na Bahia de antigamente, as fogueiras espalhadas nas portas das casas, em terreiros de chão batido,  faziam brotar os sorrisos e, enquanto os céus eram iluminados por fogos de artifício, um fole de sanfona embalava a noite adentro.

“São João passou por aí?”

Ouvia-se na casa ao lado as mesmas palavras. Os rostos em volta da fogueira, pessoas consumindo comidas típicas e licores de sabores variados faziam crepitar os olhos afogueados daquela gente tão igual em sentidos, emoções.

O maior dos encantos, diria até, do milagre do São João, nunca foi soltar balões, hoje proibidos, ou espoucar fogos de artifícios pelo céu. Era um estado de espírito elevado, uma capacidade de acender os corações, de aproximar o que se pressupunha distante.

Hoje, quando tantas portas permanecem fechadas e tantos rostos se escondem atrás de grades, câmeras e desconfianças, a velha pergunta ressoa como uma lembrança de um tempo em que a festa era também um pacto de convivência.

A insegurança das ruas desabou com os antigos arraiais a céu aberto. A violência urbana corroeu completamente o espaço público, a festa comunitária, fazendo morrer o encontro, o abraço, o afeto.

Transferiu-se uma festa comunitária para praças enlameadas e rodeadas de banheiros químicos com um palco gigante para um mega show onde artistas anômalos ao São João desfilam suas coreografias de igual teor.

Os gestores públicos pouco a pouco vão matando o São João a golpes de uma modernidade dissociada de seu patrimônio cultural, com total abandono de suas tradições. Suas raizes aos poucos vão se perdendo lentamente.

O São João de hoje parece aquelas sombras de fogueiras artificiais. A memória aos poucos se embota.

São João passou, mas,  parece não volta mais.

Passou.

E deixou saudade.

 

 

Wagner Bomfim

06/06/2026

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Ana Maria
Ana Maria
2 meses atrás

Passou, que pena. Estão levando tudo que um povo acolhedor tinha, agora só restam as músicas ridículas desses cantores sertanejos e os forrós das praças financiados com dinheiro público misturado com corrupção.

Guache Marques
Guache Marques
2 meses atrás

Na infância, por volta dos 10 a 15 anos, eu e meus amigos saíamos pelas casas da rua perguntando: “São João passou por aí?”.
Sempre éramos recebidos com abraços calorosos e com as deliciosas guloseimas típicas do São João. Era um tempo de fantasia, de alegria compartilhada e de uma reciprocidade entre vizinhos que hoje parece quase impossível de reviver.

A vida segue, o tempo muda e, infelizmente, os costumes também mudam — muitas vezes para pior. O restante dessa história está bem ilustrado no texto, mas o que vemos atualmente é o desaparecimento gradual dessa e de tantas outras tradições, sacrificadas em nome de um suposto avanço da vida moderna.

É triste e lamentável perceber como práticas que fortaleciam laços comunitários e traziam encanto às nossas memórias estão praticamente morrendo.

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