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Blog News 28 de junho de 2026

As Bets que adoecem.

As Bets que adoecem.

A Copa do Mundo de futebol da FIFA, agora realizada no coração do capitalismo, escancara não apenas a xenofobia contra latino-americanos, africanos e asiáticos, mas também produz e revela as diferenças econômicas entre as seleções participantes, nas quais os jogadores das nações do Sul Global são apenas mercadorias a serviço de empresas vinculadas ao grande esquema de lucro que a entidade capitaneia.

Hoje, o Brasil não é apenas o país do carnaval e do futebol. É um país atolado em vícios de apostas; ele tem uma indústria de lucros geradoras de um adoecimento familiar perfeitamente alinhada com os três pilares da máquina pública e privada: o Estado que arrecada, o mercado que especula e o futebol completamente dependente de financiadores, domesticado sob a rédea do capital.

Na prática clínica, deparamo-nos diariamente com mania em jogos como um quadro psiquiátrico. Quando uma pessoa digita uma odds no celular, ela não está apenas jogando; torna-se um vetor de fortunas para uns, o número aleatório jogado na quina ou mega sena para tentar acertar em uma bolinha da loteria da Caixa são os instrumentos de pobreza para outros. O cérebro chega a um ponto que já não busca mais dinheiro – busca a adrenalina da iminência de ganho, enganando-se com vitórias próximas, com o “quase”, e se aprisiona em um ciclo de ansiedade, depressão e vazio. Num cenário mais trágico, inúmeros casamentos são desfeitos e, muitas vezes, ocorre o pior: o suicídio por dívidas impagáveis.

Tão logo acabe a Copa da Vergonha – para não repetir outros adjetivos –, voltaremos a disputar as competições nacionais, amplamente viciadas em seus resultados, seja pelas arbitragens incompetentes ou tendenciosas, como visto em inúmeros jogos, e com os clubes das séries A e B ostentando patrocínios de bets em suas camisas. Há uma clara indução para que milhões de brasileiros se viciem compulsivamente. Não há no horizonte próximo um freio nessa tragédia anunciada.

A maior armadilha do país foi montada nos gramados. As casas de apostas pagam milhões de reais para estampar seus nomes gigantescos no peito dos maiores clubes de futebol do Brasil. Os estádios, reformados com recursos públicos para uma Copa desastrosa de 2014, são transformados a cada dia em “Arenas de Bets”, empresas que lucram com a ruína e adoecimento de milhares de famílias.

O endereço desse capital gerado pelas bets tem endereço fixo; localiza-se no sistema financeiro de São Paulo. Essas plataformas, ao mesmo tempo e indiretamente, patrocinam os clubes para que eles sejam o garoto-propaganda perfeito. Quando um torcedor vê seu ídolo vestindo aquela camisa, ele sente que a aposta é uma extensão da sua paixão, que seu endividamento vai levar seu time ao estrelato. Ocorre uma bem direcionada estratégia para auferir lucros mesmo que à custa de expropriar os parcos recursos da maioria da população. O dinheiro do crime organizado, narcotráfico, e da especulação financeira, que passam pelos escritórios assépticos da Faria Lima, veste a camisa do Flamengo, do Corinthians ou do Palmeiras, transformando a idolatria em combustível para o vício.

O governo federal, que deveria regular essas bets para proteger a sociedade, tornou-se o maior sócio desse negócio. O Estado não vê o endividamento, vê apenas a receita que abarrota o Ministério da Fazenda. Mas há um colapso social a ser visto, há uma enorme fila nos ambulatórios dos CAPS, em alas de psiquiatria de hospitais públicos e um consumo desmedido de antidepressivos e ansiolíticos. O governo vê arrecadação. A sua “Loteria da Caixa” é uma mina de recursos. Ele cobra impostos e literalmente transforma essas odds (o desespero por ganhar) em superávit primário. Só que tudo deságua na saúde mal financiada, no adoecimento de milhões de pessoas, e no fim das contas, na Seguridade Social com pagamento dos auxílios-doença, pensões e aposentadorias.

É uma aliança cínica: o Estado, a Faria Lima e os dirigentes de clubes de futebol que sentam-se à mesma mesa do ajuste fiscal e de outras falácias exploratórias da sua população.

Há um triunvirato nessa história toda. Os financistas ganham seu bônus; os juros da dívida pública nunca auditada. Essa banca nunca perde. O governo, que deveria impor a proibição,  a exemplo do que ocorre com anúncios de tabaco, é omisso, conivente, quando o assunto são as cervejarias e as empresas de apostas. Os cartolas de futebol completam esse trio e se locupletam com sua fatia, os recursos para continuar gerindo seus clubes em total dissonância do interesse social. Para os que comandam o sistema, a vida vale pouco, ou nada vale.

Importante é mostrar atletas de alto rendimento e assemelhados sorrindo, vendendo esse infortúnio. As estatísticas de adoecimento e infortúnio são irrelevantes num balancete mensal.


Wagner Bomfim

28 de junho de 2026.

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Marirone Lima
Marirone Lima
16 minutos atrás

Essa questão é grave, exige atuação urgente e seus efeitos são sempre negativos.

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