Foi bonita a festa, pá. Estou contente!
“Foi bonita a festa, pá. Estou contente!” (1)
Uma primavera que se anuncia nos trópicos dá o tom desta crônica, dois dias após o Brasil ganhar um sopro de oxigênio em sua frágil democracia, no momento em que houve um levante da população dirigindo-se às urnas e dando um claro recado às forças de extrema-direita política aqui e pelo mundo afora.
A dita festa da democracia burguesa contou com a cara do brasileiro de todas as idades, cores e condições socioeconômicas e educacionais. A alegria estampada nos rostos durante o pleito valeu muito mais do que a vitória de um candidato: valeu a preservação do nosso direito de escolher soberanamente o próprio destino.
Contudo, não podemos esquecer que a democracia não é um presente obtido em um pleito eleitoral; é uma conquista que exige vigilância. Não podemos descansar, embriagados pela vitória da democracia, esquecendo de enxergar o que se esconde nas sombras, onde a serpente está em franca gestação. Não se deve confundir a vitória eleitoral dentro do sistema democrático burguês com o hálito quente que ora bafeja – o totalitarismo.
Em O Ovo da Serpente (2), do cineasta Ingmar Bergman, o cenário de antevisão de uma Europa de 1923 já revelava os sinais que a história comprovou politicamente duas décadas depois, com a catástrofe conduzida pelo nazifascismo.
É oportuno colocar três princípios no presente, ( 3) para que a história não se repita como tragédia: conhecer o terreno onde pisamos, sem confundir divergência com autoritarismo; antecipar o perigo, fortalecendo a educação política e a independência das instituições; preservar os mecanismos constitucionais, defendendo a democracia e impedindo que a sociedade seja arrastada para uma guerra permanente, como se anuncia.
Assim, cantarolar apenas os versos de Chico Buarque é, no mínimo, pueril; é também esquecer os traumas vivenciados ao longo da história, enquanto outros inimigos alimentam um ovo às escuras.
A história bate à nossa porta, e a vigilância deve ser constante. Todo e qualquer movimento deve ser entendido sem necessariamente transformá-lo em tragédia. Há de se ter firmeza e discernimento, sem sacrifício dos princípios democráticos.
O Ovo da Serpente aí está; cabe-nos impedi-lo de eclodir.
“Foi bonita a festa, pá. Estou contente.”
Contudo, não dormirei no posto de sentinela contra o mal.
Wagner Bomfim
27/10/2026
P.S.
1.Tanto Mar – Chico Buarque de Holanda
2.O ovo da serpente – Ingmar Bergmam
3.A arte da guerra – Sun Tzu
2014: eleição de Dilma, o congresso com o supremo e tudo, o ovo posto. 2016: impeachment de Dilma, o ovo sendo chocado. 2018: a eleição do inominável, o ovo eclode! 08/01/2023: a tentativa de golpe, a serpente mostra suas cabeças. A caixa de Pandora escancarada. Há algo pior por vir?