“A praça é do povo como o céu é do condor.”
C.Alves
No século XIX, Castro Alves posicionado em cima de um banco de madeira declamou seus versos que falavam de liberdade e de abolição dos escravos, em frente ao Palácio das Princesas, no Recife. Hoje, a rua e os discursos são outros.
Com as redes sociais da internet, discute-se tudo, do fato verdadeiro ao falso, de como fica a democracia e se o cidadão é ouvido de verdade, sem que esteja submetido aos filtros das instituições.
Neste século, além dos discursos em praça pública, mais vozes ganharam as redes com a promessa de falar direto ao eleitor. Essas vozes e narrativas entretanto continuam concentradas em poucos “especialistas”: sao os marqueteiros, os influencers e outsiders que, no fim, mexem nos algoritmos e atendem aos interesses dos donos e investidores das bigtechs.
As eleições recentes no Brasil mostram essa suposta ampliação da participação democrática, mas ela é alterada no seu formato por atores que decidem o que será impulsionado. Que fatos, temas ou pessoas são relevantes, conforme o consumo da população e o lucro das bigtechs, donas que são da economia da atenção. É evidente que esse modelo não leva necessariamente a mais participação política vez que a sociedade tem dificuldade de pautar seus interesses ficando assim longe do poder de decisão.
A democracia popular efetiva está longe desse controle de poucos: dos especialistas em informação, das bigtechs e do menos de 1% que controla a economia mundial.
O poder popular é delegado a esses atores. Aos poucos, deixamos de ser agentes da transformação social e viramos sujeitos submissos a essa tutela. Há uma idolatria dos performáticos que simulam uma participação popular. É parecido com reuniões de condomínio ou com plenárias partidárias, quando “líderes” ou “donos” impõem sua vontade a condôminos ou militantes submissos e mantêm as normas de poder da democracia burguesa estabelecida sob o poder econômico.
“Ah! Não há muitos setembros,
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.”
C. Alves.
A democracia das redes é dominada pelo funcionamento do algoritmo. Ele determina o que pode ser visto, impulsionado e debatido. Esse poder, assustador, ainda não é plenamente conhecido por nós.
A nova política ligada à internet e às redes não acabou com a hierarquia política, com líderes e experts controlando a pauta e o voto. Ela só se reconfigurou para a volatilidade dos tempos, o que antes era voto virou um like. O marketing digital dita a pauta; as bigtechs lucram com a atenção exagerada e chegam a promover resultados eleitorais que não refletem as necessidades populares na democracia atual.
Existe uma nova praça para discursar e uma nova rua para manifestações, mas o cidadão é quem está sob as luzes da ribalta nesse mundo cada vez mais distópico.
Precisamos ampliar e fazer valer o poder de nossas vozes. O condor do poema romântico não pode ser apenas metáfora da liberdade dos nossos destinos.
Wagner Bomfim
02/11/2026
P.S. Castro Alves. O povo ao poder. Recife;1864
