As redes do ódio

As redes do ódio

Como a extrema direita se espalha pelo mundo.


A história não é contada como ela é vivenciada.
                                                                     Tony Judt

 

O precedente Obama     

Em 2008, o então candidato do partido democrata ao governo dos EUA, Barack Obama, tinha o slogan “Yes, we can” – Essa seria a campanha vitoriosa para um partido, liberal nos costumes, mas tão igual ao seu oponente – os Republicanos – ambos mantêm os EUA como o centro do capitalismo financeiro mundial.

Ele, Barack Obama, seria o primeiro candidato a uma eleição majoritária a usar com habilidade ímpar as redes sociais, fazendo chegar aos recônditos do país o mantra de que era possível retirar os EUA da grande crise econômica que se abateu sobre o país em 2008 após a quebra dos bancos Lehman Brothers com repercussões no resto do mundo.

Os fatos a seguir revelam como as redes sociais do mundo virtual da web e o avanço da extrema direita se relacionam e se propagam em grande velocidade no mundo contemporâneo. A informação como divulgada se transforma a cada minuto e os verdadeiros fatos revelam-se logo como passados a serem descobertos arqueologicamente no mundo digital.

O presidente citado, embora falasse para mais de um milhão de seguidores nas redes sociais da época (Twitter, YouTube e Facebook), manteria a velha política de espionagem e intervenção sobre diversos países, principalmente naqueles onde há riquezas a serem explorados. No caso do Brasil, agudizou-se o processo de espionagem posto em prática desde o período do golpe militar de 1964, incursões estas justamente no período de descoberta das jazidas de petróleo em mar profundo – o Pré-Sal, fatos que vieram a ser reveladas pelos documentos publicados por Edward Snowden em 2013.

A crise migratoria 

Noutros países, a exemplo da Síria, Sudão e Egito, as guerras existentes vêm acompanhadas de velhas justificativas repetidas há décadas de “por mais democracia e menos corrupção ”. Dados extraídos de relatórios da ONU apontam que na Síria, mais de 5 milhões de refugiados buscam um local para morar e trabalhar em países vizinhos. A recente guerra civil no Sudão já colocou quase 10 milhões de pessoas para a fronteira com o Egito.A esses se somam os milhões de palestinos expulsos da Faixa de Gaza pelo genocídio em curso pelo estado de Israel. Muitos dos refugiados se aventuram em travessias navais pelo Mediterrâneo, com tragédias humanitárias sucessivas. Os migrantes que conseguem atingir as costas dos países do norte do hemisfério formam longos e intermináveis fluxos migratórios. Abarrotam os subúrbios dos grandes centros dos países europeus, em habitações sem infraestrutura e sobretudo , destituídos dos direitos de cidadania nesses países. As populações autóctones passam a enfrentar a concorrência, já escassa, das ofertas de emprego e trabalho e a estes trabalhadores precarizados atribuem as causas desse  perverso status do neoliberalismo.

Esse contexto socioeconômico conduz ao surgimento de políticos alinhados com uma pauta extremista de direita tais como identificamos na Hungria, Turquia, Itália, Portugal, Austria, Argentina, EUA. Aqui no Brasil, vimos reacender o ideário fascista de 1930, pautado nos valores de família tradicional, de um Deus hebraico fundamentado em passagens do Velho Testamento da Bíblia e na defesa da grande propriedade, esta, como alicerce da formação do estado brasileiro.

Esses políticos de extrema direita, destituídos de um projeto de nação e de melhoria das condições de vida da população deslocam a discurso para a questão da xenofobia, alem de relacionar esses contingentes migratórios a um aumento da violência urbana.

A historia entretanto é testemunha dessa mesma narrativa dos europeus contra os judeus, armênios, orientais e africanos.Esse discurso  já se mostrou o amálgama dos sentimentos existentes entre ressentidos, despossuídos das condições de vida almejadas, herdeiros de valores ultraconservadores desde o século XIX. Estes processos foram habilmente traduzidos por líderes políticos do passado para desenvolver o fascismo italiano e o nazismo alemão no século passado no período entre as duas grandes guerras.

A nova extrema direita

Hoje, diferente do passado, onde a vida pública era pautada por narrativas em arenas politicas, onde o conhecimento estava a serviço da ciência politica, ocorre muito mais que superficialidade do saber, ocorre a utilização de técnicas cientificas de neurolinguística para tocar cada individuo  no que ele tem de mais precioso para os regimes totalitários, que e’ lidar com o rancor, com o ódio ao semelhante, com ódio ao diferente. A utilização das redes sociais são o espaço de disseminação  de narrativas que associam refugiados, crenças, hábitos culturais, como ameaças aos valores nacionais. Tudo isso amparado nos algoritmos, conjunto de dados trabalhados matematicamente fornecendo novos dados a serviço das bigtechs.

A morte do debate publico

Assim como lideres totalitários do passado capturavam os sentimentos populares em longos discursos, plateias, fazendo-os se sentirem participes daquele projeto, hoje os atuais políticos, outsider, influencers, tem nas redes sociais o veiculo que fragmenta a informação, traduzindo-a na medida exata dos valores individualizados,  guiadas pelos algoritmos das bigtech.

A velocidade com que as redes sociais da extrema direita veiculam supostas verdades capturam a atenção do individuo, desde o mais analfabeto dos seres, até indivíduos de maior poder aquisitivo ou educacional, sob o olhar atônito de setores da esquerda ou centro esquerda, sempre reativa  e sem uma estratégia de imposição de sua narrativa político ideológica.
A identificação do cidadão com pautas da extrema direita não se explica apenas por nível socioeconômico, mas, sobretudo, por valores intrínsecos a cada pessoa e a este paradigma a esquerda ainda não conseguiu se contrapor.  

E o futuro ?

A extrema direita em nivel mundial percebeu há tempos como essa é uma forma eficaz de angariar adeptos, sentimentos , mesmo tendo convicção que o que for propagandeado não seja verdadeiro, não há um interesse efetivo pela verdade, pelo debate público. A velocidade das redes e os dados por ela emitidas, analisados e colocados a disposição de regimes totalitários conduzem a uma “tomada de posições “ por essa grande massa. Os empreendedores de si mesmo, os escravos pós modernos do neoliberalismo, serão os artífices de um mundo distópico?  Estamos condenados a viver numa infocracia?

 

Wagner Bomfim

11/04/2026                                                                                                                                                                                                                                                                  

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José Luiz Lima
José Luiz Lima
18 horas atrás

Muito minucioso e esclarecedor.
Um alerta para os socialistas!
Abraço

Raymundo Luiz Lopes
Raymundo Luiz Lopes
18 horas atrás

Afora o massacre constante de Israel e EUA, como foi o de Gaza, agora, as bombas seguem o caminho para o Líbano. Junta-se a esses terrores o ataque massivo de mentiras nas redes sociais. A extrema-direita cresce assustadoramente. As esquerdas, muitas delas, acuadas, não estão sabendo enfrentar os apocaliptos Trump e Netanyahu. Mas, há algumas luzes acesas e junto com elas aumentarmos os faróis iluminados da democracia.
Texto muito bom! Oportuno!

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