A crise da politica e a privatização da vida.
A crise da politica existe como um fenômeno que atravessa milênios, não sendo um fato exclusivo do mundo contemporâneo. Desde a tirania e a demagogia do passado até o presente ela se caracteriza, sobretudo, pela apatia do indivíduo, pela falta de representatividade bem como pela corrupção existente entre o público e o privado. Se articula com o esvaziamento dos espaços coletivos e por conseguinte, ocorre uma transformação do cidadão em mero consumidor, onde a política passa a ser teatralizada, a ser consumida em torno de valores morais.
O desmonte progressivo do Estado de Bem estar Social desde a década de 80 do século passado promoveu um aprofundamento da crise política. Esse modelo de Estado, como acomodação entre o capital e o trabalho, fruto do pós guerra, sofreu um duro golpe com o avanço do capitalismo simbolizados, por exemplo, na queda do Muro de Berlim em 1989 e na criação do Consenso de Washington em 1992. O decálogo neoliberal desse Consenso foi o ápice de uma politica hegemônica do capital financeiro que vinha sendo levada a efeito desde os governos de Ronald Regan (EUA) e Margareth Teacher (Inglaterra ) com a progressiva redução das arenas politicas e como consequência uma maior privatização da vida.
Com a expansão das empresas para outros países( transnacionalização), o capital aprofundou as condições dos países periféricos, Africa, parte da Àsia e América do Sul. Os espaços coletivos decisórios , viriam a refletir, quase que exclusivamente, os interesses dos países consumidores centrais. A forca sindical passou a sofrer uma coação econômica com os recursos cada vez mais minguados, além de legislação restritiva e coação ideológica. Esse neoliberalismo ao redor do mundo apresentou-se de maneiras distintas do sindicalismo no Brasil, abafado desde o inicio pelo golpe militar de 1964.
O sindicalismo brasileiro entre os anos de 1970 a 1980, embora enfrentado reveses no aspecto politico, submetido que estava as ações de perseguição política, promoveu o surgimento de lideranças no período mais sombrio da ditadura militar com a criação de partidos politicos de esquerda e de uma Central Unica de Trabalhadores.
O neoliberalismo entretanto, vinculou o sindicalismo `a modelos econômicos atrasados, `a estagnação e a perda do direito a propriedade ( SCHWARC,L.M). Tais narrativas ainda são prevalentes e sua atividade enfrenta revezes no seio do sistema judicial, portanto passiveis de criminalização.
A virada do século XX com sua automação, a informatização e a criação das redes de computadores, transformou a economia, mas produziu um cidadão dissociado da vida coletiva, da sua rua, do seu bairro, da sua categoria profissional ( SANTOS,M).
As arenas decisórias se transformaram em espaços de teatralização de questões morais, de gênero, raça, costumes, em detrimento de debates que envolvam a economia, saúde, educação. Esse reducionismo transforma a política em domínio de experts, de marketeiros e políticos profissionais, quase sempre representando setores conservadores da sociedade e proprietários dos meios de produção. Nesse espectro politico tem ganho destaque também os outsiders, como elementos de “fora do sustema” a negar a arte politica, o consenso.
Assim, a luta por direitos se esvai pela fragilidade dos espaços coletivos, contudo, cresce o egocentrismo, no campo laboral se evidencia cada vez mais o empreendedor de si mesmo. Tornamo-nos habitantes de uma modernidade liquida com sua aceleração e descarte da informação, conforme pontua Zigmund Baumam, condição onde os signos se dissolvem.
Como cita Chul Ham, estamos a viver numa Infocracia, onde as redes sociais são uma espécie de antigas associações de bairro ou o sindicato de classe, contudo, sob o controle das bigtechs. Esse “ controle” acaba orientando nossos “desejos” através dos dados coletados e manipulados sob algoritmos. Ao tempo em que mobiliza indivíduos também os desconecta centrando—os na unidade de si mesmo, como uma célula isolada. Sua capilaridade entretanto, possibilita a resistência, a oposição ao controle, a distopia.
Debatemo-nos entre a ignorância politica e o impulso de consumir; coisas, pessoas, prazeres. Como escravos pós modernos da automação testemunhamos o desaparecimento de todos os signos e símbolos( idem). A vida, de forma cartesiana, binária, torna-se enfim volátil na sociedade da informação.
Wagner Bomfim
17/04/2926
Referencias:
1.BAUMAM, Z. A Modernidade liquida.
2CHUL HAN, B. – Infocracia.
———————— – O desaparecimento dos Rituais.
3.SANTOS, M. – Por uma outra globalização
4.SCHWARE, L.M.- Sobre o autoritarismo brasileiro
