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Blog Opinião 11 de junho de 2026

Noventa minutos

Noventa Minutos e um Genocídio

Ou da dificuldade de torcer sabendo o que acontece no mundo.

Recebi essa semana um convite para assistir ao jogo da seleção brasileira de futebol no sábado, dia 13. Pensei em responder, mas teria que justificar a recusa -soaria antipática, fora do contexto, de um mundo que me recuso a participar. Decidi ficar em silêncio.

Quase não escrevo isso. Não por falta de vontade. É aquela coisa: o horror está banalizado, e a gente tem perdido a capacidade de sentir. Acordo, tomo café, olho o celular e vejo: mais dezenas de crianças mortas em Gaza. Passo o dedo na tela. Só depois me dou conta: passei para a próxima notícia como se fosse uma propaganda.

Mas o problema sou eu. Ou somos nós. Constato.

O futebol volta a cena com a Copa do Mundo nos EUA. Vou ser envolvido mesmo sem querer. Você também, provavelmente. Vão abrir uma cerveja, torcer por um gol, pular do sofá. Por noventa minutos , além dos acréscimos, a bola vai rolar, e com ela a nossa capacidade de esquecer o resto. Um mundo cada vez mais distópico. Fica a incapacidade de se indignar.

O resto é: enquanto a narração da detentora dos “direitos de transmissão“, plim- plim, berra, enfatiza uma suposta superioridade dos atletas sul-americanos frente à força e disciplinas europeias, um míssil rasga os céus e acerta o que restou de um prédio em Gaza. As crianças de lá não sobem no ombro dos pais para ver o lance repetido. As crianças que sobraram desse genocídio sobem o amontoado de concreto. É preciso retirar corpos dos escombros. Não tem câmera lenta. Não tem VAR. Não tem segundo tempo.

Tentei comentar sobre isso com um amigo outro dia. Ele perguntou: “Mas o que a gente pode fazer?”. Um conformismo se abateu entre nós e eu não soube responder. Ainda não sei.

Sudão, pais que acompanho há anos, está em guerra civil. Dez milhões de pessoas nas fronteiras, a fome utilizada como arma, enquanto caminhões da falida ONU são saqueados. Você viu alguma coisa sobre o Sudão essa semana? Eu vi uma mera citação no Euro News. Enquanto isso, os patrocinadores dos jogos da CBF- Betano, Brahma, Vivo – além dos bancos, faturam milhões nos intervalos. No intervalo de uma Copa do mundo da vergonha levada as últimas consequências por um presidente da FIFA, Gianni Infantino, cúmplice do genocídio perpetrado pelos EUA, União Europeia e Estado de Israel. No intervalo do mundo e sua pantomima cruel.

Não estou dizendo que o futebol é o problema. Sou flamenguista até morrer. Gosto de estádio, de gritar gol, daquela catarse coletiva. O problema é quando essa catarse vira álibi – a grande mídia empurra Gaza, Sudão, Líbano para debaixo da grama. É quando a minha comoção pelo genocídio palestino cabe numa postagem de celular com fundo preto e letras brancas, e dez minutos depois eu já estou imerso no desafio futebolístico seguinte.

Vai ter gente dizendo que futebol e política não se misturam. Coisa de cronista frustrado. Mas a verdade é simples: noventa minutos de fogos de artifício regados a amendoins e a cervejas de milho transgênico, enquanto o outro lado do mundo queima de verdade. Nós, do lado de cá, reclamamos do trânsito para ir pra casa às pressas assistir ao jogo. Do outro lado do mundo tem-se pressa para sobreviver às guerras.

No Líbano, alguém procura um filho sob os escombros. Em Gaza, uma mãe enterra três filhas com as próprias mãos. No Sudão, uma filha carrega a mãe doente nas costas rumo ao Chade. E aqui, termino isso, salvo o arquivo, e vou – com remorso –  quantificar quantos gols valem todas essas vidas. Que importa o placar?

Os mortos não têm revanche. Eles não entram em campo.

Wagner Bomfim

11/06/2026

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Marirone Lima
Marirone Lima
1 hora atrás

Infelizmente só verdades… tb não me interessei e não me interesso pela Copa por todos esses motivos e mil outros associados. Infelizmente não podemos agir para mudar, mas podemos escolher não dar palco para essa versão do Circo Romano… triste…

Cacilda Félix Santos
Cacilda Félix Santos
2 minutos atrás
Responder para  Marirone Lima

Marirone, sua crítica é perfeita .
Eu não entendo muito sobre futebol , mas sempre admirei o entusiasmo do povo .Sempre foi o momento , principalmente do povo pobre , ter seu momento de felicidade .
Entretanto , sempre questionei o comportamento dos “ídolos“ do futebol .
Quais os benefícios e o olhar que os mesmos davam de retorno para quem os idolatravam ?

Vixe , quase escrevi uma crônica !
Desculpe- me

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