Teatro de horrores.
O teatro de horrores
– A bola rola no campo de guerra –
Sim, há um certo conteúdo poético quando olhamos o passado e observamos em ação duas instituições: a FIFA criada em 1904 e a ONU imediatamente após a Segunda Guerra Mundial.
As duas foram concebidas, a princípio, para promover a paz via diplomacia ou através da bola de futebol, no caso da FIFA, que tem maior abrangência e hoje conta com 211 países filiados, mais que a própria ONU.
Duas instituições que, cada qual à sua maneira, se comportam como um goleiro de time de várzea – até acerta o canto, vai lá, mas a bola, caprichosamente, sempre morre no fundo das redes.
O Conselho de Segurança da ONU me causa uma estranha sensação. Seria como ver uma assembleia da FIFA. Ali estão os mesmos votos ensaiados, os mesmos interesses que rolam nos bastidores, o mesmo discurso inflamado que não resolve absolutamente nada. Os cinco membros permanentes desse conselho são como grandes cartolas do futebol: podem vetar tudo, inclusive o bom senso. Há um jogo de cena, entre um bombardeio e outro, onde um dos impérios ensaia um cessar-fogo; do outro lado há uma medida calculada, e a guerra continua, como um jogo de futebol com prorrogação interminável.
Ano após ano, a indústria da guerra ocupa países detentores de riquezas, produtos estratégicos que despertam interesses das nações colonizadoras. Se há um tempo a ONU envia observadores para locais de conflito ou países considerados ameaçadores – tal qual ocorreu no Iraque no fim do século passado –, acaba gerando relatórios tardios e inúteis.
A FIFA tem atitude similar, impondo seus interesses monetários. Suas federações mantêm condições aviltantes para os operadores finais do espetáculo – os atletas. Fiscalização zero. Inúmeras resoluções, mediações a mando de um determinado país. Ambas sequer olham suas condutas imorais. Nesse ínterim, mísseis cruzam os céus, tanques avançam, minas terrestres são abandonadas em campos onde a bola não rola, só cadáveres.
A ONU consegue, após meses de negociação, emitir uma resolução frouxa condenando ações de países em guerra, implorando que civis não sejam atacados – institucionalizando o horror da guerra. A FIFA, quando muito, expõe-se ao ridículo ao punir um jogador, após meses de investigação, com uma suspensão ridícula, por tirar uma camisa ao comemorar um gol.
Há um comportamento omisso, pusilânime, com a indústria da guerra. As sanções econômicas ratificadas pela ONU são, em verdade, determinadas pelos países capitalistas. Funcionariam como cartões amarelos aplicados a um jogador na saída para o vestiário: tardios, inúteis, passíveis de disputas acirradas nos tribunais esportivos. Assim funcionam os vetos das potências: EUA, China, Rússia, França e Reino Unido, todos com assento permanente no referido conselho.
E a FIFA? Continua a mesma desde 1920, sempre escolhendo sedes que possibilite- lhe mais renda, quando não apoiando ditaduras, países que violam direitos humanos e em certos períodos associando-se ao nazifascismo (ver Itália em 1930, Argentina em 1978, Rússia em 2018, Catar em 2022 e em breve a Arábia Saudita). Sanções? Patéticas.
A corrupção habita os gabinetes da “neutra” Suiça onde fica a sede da FIFA bem como nos ricos gabinetes do majestoso prédio da ONU em Nova Iorque. Seus dirigentes continuam lá, mesmo que transfiram uma Copa do Mundo de um país para outro, que suspendam federações ou mudem as antigas regras do esporte bretão (antigo, não é?).
As duas senhoras citadas assistem às guerras pela televisão, tal qual um torcedor que assiste ao jogo acomodado numa poltrona ou escorado num balcão de botequim da esquina tomando uma cerveja. O jogo pra elas já foi “jogado”.
Vez ou outra, uma ameaça de sanção, mas os interesses pelo “jogo” ditam as regras. A bola rola nos campos, bem como bombas atingem escolas infantis no Irã ou tiros são propositalmente disparados nos pés de crianças por soldados israelenses em Gaza.
Noutra cena um juiz da Somália é impedido de apitar por ser negro, e a FIFA nada faz; não há neutralidade nem na sua equipe de árbitros. Por outro lado ela proíbe o Haiti de exercer seu direito de país independente apenas por estampar uma marca em seu uniforme. Sobre a Batalha de Vertieris.
O jogo continua. As Assembléias da ONU de nada valem. Reuniões de emergência que não produzem mais que papel – já dito inúmeras vezes pelo Presidente Lula da Silva. Diplomatas que falam, presidentes que discursam, mas são os generais que acionam os mísseis. ONU e FIFA compartilham da mesma conduta: são organismos internacionais que, na hora do que importa, são mais decorativos do que eficazes.
O mundo hoje é apenas um palco onde predominam os interesses das grandes potências.
Aqui, deparamo-nos com os patriotas sentados frente à TV, apostando nas bets, sensíveis a um gol perdido, indiferentes ao resto do mundo.
Para esses, nem cartão vermelho dá jeito!
P.S. Ao tempo em que publico essa crônica os EUA bombardeiam a Venezuela e encena uma discordância com o Estado de Israel
pelos bombardeios no Líbano .A indústria bélica americana nunca faturou tanto!
Wagner Bomfim
15/06/2026