Edição de hoje • segunda-feira, 22 de junho
Blog Do Wagner
← Início
Blog Cultura 21 de junho de 2026

A Peleja do São João contra a Modernidade

– A Peleja do São João contra a Modernidade –

Vou aqui me aprumar

Pra uma encomenda fazer

Pois a missão é de lascar

Mas não sou de arrefecer.

 

Construir o destruído

É qual o ferro e ferreiro

Mas como estou imbuído

Vou me aprumar por inteiro.

 

Tive assim a incumbência

De falar sobre a cultura

Do nordeste em  decadência

E em completa apertura.

 

Há toda sorte de arranjos

Pras festas de São João

Músicas de certos marmanjos

Que parecem coisas do cão.

 

Estão traindo nossa herança

Em nome da modernidade

Armando-se numa gastança

Por conta duma diversidade.

 

Não falo de diferenças

De povo, cor, ou nação

Falo da decadência

Vendendo nossa tradição.

 

Hoje a festa de São João

É muito mais que quermesse

Parece mais um aluvião

Travestido de mal interesse.

 

Tem gestor e tem prefeito

Se esbaldando no forró

Ganhando grana de um jeito

Sem qualquer borogodó.

 

O esquema é tão bem bolado

Tudo é sem licitação

Pois tem recurso enviesado

Nas linhas da armação.

 

Um palco gigante na praça

Só pra enganar o turista

Que paga pela desgraça

De ouvir um falso artista.

 

Sem zabumba e sem sanfona

Sem triângulo e sem xote

Com renca de gente cafona

Que não bebe água de pote.

 

Camarote e sanitários

Rodeiam as diversidades

Pra dondocas e proprietários

Fazerem as necessidades.

 

Onde se verte urina

Tem até menos fedor

Pois limpo com creolina

Vai levantando o odor.

 

O cheiro porém  é pior

Pois rouba o público erário

Retiram-lhe o sangue e suor

Do trabalho do operário.

 

A grana que dá saúde

Pra criança educação

Desfalcada e amiúde

Pela vil corrupção.

 

Marmanjos anabolizados

De barba e cintura finas

Com trejeito e rebolados

Em desespero, as meninas.

 

O forrozeiro raiz, meu senhor

Ele que ensaia à vontade

Seu cachê perde o valor

Frente a tal diversidade.

 

Seu triangulo enferrujado

Seu zabumba bate rouco

E a sanfona do coitado

Sofre mais que galo rouco.

 

É tamanha a  estupidez

Da justiça e dos gestores

Por conta da cupidez

Da renca de malfeitores.

 

A cultura nordestina

Vai perdendo-se ao léu

Vai sumindo pequenina

Como um balão pelo céu.

 

Não tem mais o balão-beijo

Fogueira, senhor, nem pensar

E o pobre do sertanejo

Fica tristonho a penar.

 

Antes havia cobrinha

Traque, espada e rojão

Hoje os caras de fuinha

Desfilam de ouro e cordão.

 

O milho que era assado

Na fogueira tão brilhante

Hoje vem industrializado

Sem sabor e com corante.

 

Batata, milho,  amendoim

Na fogueira crepitava

Enquanto o bolo  de aimpim

Na mesa a todos fartava.

 

No terreiro tinha dança

E o xote, então, dava calor

Hoje só existe insegurança

Violência, medo, dissabor.

 

A quadrilha que encantava

Dançando  o “ anarriê”

O salão iluminava,

Coisa que não mais se vê.

 

O tronco da bananeira

Era sítio de simpatia

De amores, de brincadeira

De suspiros e  de alegria.

 

Hoje tudo está mudando

Pra pior ou tão sem graça

Tem gente se empanturrando

E a maioria em desgraça.

 

Estão mudando o São João

Sua cabeça jaz na bandeja

Entristecendo o coração

Do trovador que apenas solfeja.

 

Encerro com muita tristeza

Essa encomenda e atalho

Mas não sou de tibieza

Nem sequer sou espantalho.

 

Minha garganta e a pena

Tem o condão de sonhar

Pois sei sempre vale a pena

Lutar, lutar, sem recuar.

 

Pois da terra o nordestino

Não  teme a briga e a sorte

Pois diz assim seu destino

“O sertanejo é antes de tudo um forte”.

 

 

Wagner Bomfim

21 de junho de 2026.

Compartilhar Link copiado!

No Instagram o link é copiado para você colar no story ou na bio — a rede não permite compartilhar link direto pela web.

5 2 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest

4 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Paulo Fernando de Almeida
Paulo Fernando de Almeida
15 horas atrás

Rapaz, vc conseguiu dar voz a todos nordestinos que querem um Sjoao raiz. Com esse autêntico cordel você valoriza a cultura nordestina e detona o espetáculo comercial proporcionado com recursos públicos via a safadeza dos políticos!

Marirone Lima
Marirone Lima
14 horas atrás

Tinha lido antes! Aqui o texto ficou ainda maior e mais bonito, emocionando-me muito. Confesso que meus olhos ficaram marejados da emoção de lembrar as festas de São João na roça de meu querido avó Joaquim e minha vó Regina (era festa com fogueira, pau de bananeira, traque, quadrilha, mesa cheia de comidas de verdade e toda vizinhança dançando ao som de Luiz Gonzaga madrugada a dentro)… lembrei da minha mãe fazendo flores de papel e bandeirolas, providenciando comidas e licores para receber os amigos, os vizinhos, os parentes… lembrei da felicidade em ter um vestido colorido feito por minha mãe, para brincar na escola nas festas juninas… tudo mudou… perdemos a beleza, perdemos a pureza da festa junina em nome da industrialização de nossas vidas, em nome do império do dinheiro e do trabalho de usar a arte como instrumento de alienação e de esvaziamento cultural pra enfraquecer a coesão social e pavimentar caminhos para os donos do mundo: o dinheiro, o dinheiro, o dinheiro… Mas acredito que com investimento em cultura, em educação, podemos ter esperança (ao menos preciso me apegar a essa crença). Parabéns, Vagner! Você é genial com as palavras, particularmente em versos!

MARIANA CARVALHO GOUVEIA
MARIANA CARVALHO GOUVEIA
4 horas atrás

Muito bem dito

Márcio Campos
Márcio Campos
1 hora atrás

De arrepiar! Além de chamar atenção para a total desvalorização da cultura popular, alerta-nos para a feroz corrupção e a malversação dos recursos públicos, que teriam muito melhor aplicação na educação e na saúde de municípios onde muitas vezes faltam carteiras e merenda escolar nas escolas, os professores são mal remunerados e nas unidades básicas de saúde muitas vezes faltam gaze e luva para procedimentos simples. Enquanto isso, a farra com o dinheiro público acontece na praça ao lado… triste Brasil! Parabéns Wagner Bomfim!

4
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x