A Peleja do São João contra a Modernidade
– A Peleja do São João contra a Modernidade –
Vou aqui me aprumar
Pra uma encomenda fazer
Pois a missão é de lascar
Mas não sou de arrefecer.
Construir o destruído
É qual o ferro e ferreiro
Mas como estou imbuído
Vou me aprumar por inteiro.
Tive assim a incumbência
De falar sobre a cultura
Do nordeste em decadência
E em completa apertura.
Há toda sorte de arranjos
Pras festas de São João
Músicas de certos marmanjos
Que parecem coisas do cão.
Estão traindo nossa herança
Em nome da modernidade
Armando-se numa gastança
Por conta duma diversidade.
Não falo de diferenças
De povo, cor, ou nação
Falo da decadência
Vendendo nossa tradição.
Hoje a festa de São João
É muito mais que quermesse
Parece mais um aluvião
Travestido de mal interesse.
Tem gestor e tem prefeito
Se esbaldando no forró
Ganhando grana de um jeito
Sem qualquer borogodó.
O esquema é tão bem bolado
Tudo é sem licitação
Pois tem recurso enviesado
Nas linhas da armação.
Um palco gigante na praça
Só pra enganar o turista
Que paga pela desgraça
De ouvir um falso artista.
Sem zabumba e sem sanfona
Sem triângulo e sem xote
Com renca de gente cafona
Que não bebe água de pote.
Camarote e sanitários
Rodeiam as diversidades
Pra dondocas e proprietários
Fazerem as necessidades.
Onde se verte urina
Tem até menos fedor
Pois limpo com creolina
Vai levantando o odor.
O cheiro porém é pior
Pois rouba o público erário
Retiram-lhe o sangue e suor
Do trabalho do operário.
A grana que dá saúde
Pra criança educação
Desfalcada e amiúde
Pela vil corrupção.
Marmanjos anabolizados
De barba e cintura finas
Com trejeito e rebolados
Em desespero, as meninas.
O forrozeiro raiz, meu senhor
Ele que ensaia à vontade
Seu cachê perde o valor
Frente a tal diversidade.
Seu triangulo enferrujado
Seu zabumba bate rouco
E a sanfona do coitado
Sofre mais que galo rouco.
É tamanha a estupidez
Da justiça e dos gestores
Por conta da cupidez
Da renca de malfeitores.
A cultura nordestina
Vai perdendo-se ao léu
Vai sumindo pequenina
Como um balão pelo céu.
Não tem mais o balão-beijo
Fogueira, senhor, nem pensar
E o pobre do sertanejo
Fica tristonho a penar.
Antes havia cobrinha
Traque, espada e rojão
Hoje os caras de fuinha
Desfilam de ouro e cordão.
O milho que era assado
Na fogueira tão brilhante
Hoje vem industrializado
Sem sabor e com corante.
Batata, milho, amendoim
Na fogueira crepitava
Enquanto o bolo de aimpim
Na mesa a todos fartava.
No terreiro tinha dança
E o xote, então, dava calor
Hoje só existe insegurança
Violência, medo, dissabor.
A quadrilha que encantava
Dançando o “ anarriê”
O salão iluminava,
Coisa que não mais se vê.
O tronco da bananeira
Era sítio de simpatia
De amores, de brincadeira
De suspiros e de alegria.
Hoje tudo está mudando
Pra pior ou tão sem graça
Tem gente se empanturrando
E a maioria em desgraça.
Estão mudando o São João
Sua cabeça jaz na bandeja
Entristecendo o coração
Do trovador que apenas solfeja.
Encerro com muita tristeza
Essa encomenda e atalho
Mas não sou de tibieza
Nem sequer sou espantalho.
Minha garganta e a pena
Tem o condão de sonhar
Pois sei sempre vale a pena
Lutar, lutar, sem recuar.
Pois da terra o nordestino
Não teme a briga e a sorte
Pois diz assim seu destino
“O sertanejo é antes de tudo um forte”.
Wagner Bomfim
21 de junho de 2026.

Rapaz, vc conseguiu dar voz a todos nordestinos que querem um Sjoao raiz. Com esse autêntico cordel você valoriza a cultura nordestina e detona o espetáculo comercial proporcionado com recursos públicos via a safadeza dos políticos!
Tinha lido antes! Aqui o texto ficou ainda maior e mais bonito, emocionando-me muito. Confesso que meus olhos ficaram marejados da emoção de lembrar as festas de São João na roça de meu querido avó Joaquim e minha vó Regina (era festa com fogueira, pau de bananeira, traque, quadrilha, mesa cheia de comidas de verdade e toda vizinhança dançando ao som de Luiz Gonzaga madrugada a dentro)… lembrei da minha mãe fazendo flores de papel e bandeirolas, providenciando comidas e licores para receber os amigos, os vizinhos, os parentes… lembrei da felicidade em ter um vestido colorido feito por minha mãe, para brincar na escola nas festas juninas… tudo mudou… perdemos a beleza, perdemos a pureza da festa junina em nome da industrialização de nossas vidas, em nome do império do dinheiro e do trabalho de usar a arte como instrumento de alienação e de esvaziamento cultural pra enfraquecer a coesão social e pavimentar caminhos para os donos do mundo: o dinheiro, o dinheiro, o dinheiro… Mas acredito que com investimento em cultura, em educação, podemos ter esperança (ao menos preciso me apegar a essa crença). Parabéns, Vagner! Você é genial com as palavras, particularmente em versos!
Muito bem dito
De arrepiar! Além de chamar atenção para a total desvalorização da cultura popular, alerta-nos para a feroz corrupção e a malversação dos recursos públicos, que teriam muito melhor aplicação na educação e na saúde de municípios onde muitas vezes faltam carteiras e merenda escolar nas escolas, os professores são mal remunerados e nas unidades básicas de saúde muitas vezes faltam gaze e luva para procedimentos simples. Enquanto isso, a farra com o dinheiro público acontece na praça ao lado… triste Brasil! Parabéns Wagner Bomfim!