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Blog News 12 de julho de 2026

As Bets e as religiões.

As Bets e as religiões

Ao atravessar quarteirões de um bairro popular, uma coisa chamou-me atenção: pequenas garagens e galpões transformados em templos de igrejas protestantes e, ao centro, uma igreja católica — raramente um terreiro de umbanda ou templo espírita.

O primeiro pensamento que me acorreu foi perguntar: o que faz uma igreja se destacar mais que a outra? O Deus é o mesmo, a mesma Bíblia e o mesmo produto, administrativamente falando.O que difere seu poderio e popularidade?

A religião clássica, o cristianismo, atribui o  amanhã à vontade discricionária de um ser superior (Deus, Destino) controlando todas as vidas, tendo no plano terreno os intérpretes do manual de funcionamento dessas vidas — as escrituras ditas sagradas. Os mais eloquentes desses intérpretes, muito rapidamente, enchem os espaços desses galpões e, tal como numa pirâmide financeira, são catapultados aos píncaros da prosperidade monetária. Uma teologia da provisão.

Uma outra religião ora se apresenta. Independe de localização geográfica, seja em favelas ou largas avenidas das cidades. Se nas igrejas tradicionais o indivíduo se ajoelha, reza um terço, faz novenas, entrega sua vida a esse ser divino num ato de fé incontrolável, há a confissão, o testemunho de fé e também uma relação pesarosa que lhe exige paciência e sofrimento para atingir aquele estágio que seu representante na terra lhe demandou.

O estágio atual do capitalismo criou uma nova ordem religiosa, valendo-se dos mesmos mecanismos de compensação, só que, nesse caso, às avessas.

Na IUB — Igreja Universal das Bets, há a mesma rendição. Um homem aflito, ansioso, com sua Bíblia na palma da mão, clicando conforme seu representante — o influencer de bet de todos os tipos, o streamer, o ator chamando pra apostar na  Caixa Econômica Federal. São os eleitos que decifram os desígnios dos algoritmos, da estatística. Não há novenas, não há velas em santuários, um culto entronizado ou mesmo um templo. Basta um clique no celular e ele abrirá as portas do céu, ungindo um homem cego disposto a receber o milagre.

A graça se abaterá sobre esse iluminado que adentrará a um mundo de carros luxuosos, iates e de mansões com luzes infinitas. Nunca mais haverá boletos, nem dízimos intermináveis jogados como centeio numa terra árida. Ali está o homem, sem confessionário. A esperança está a um clique (a reza) e a realização imediata( o milagre ou graça ) acontece para os que têm fé. E haja fé!

Há uma sensação de todo-poder, de vender tudo e a todos, na exigência de alimentar os algoritmos probabilísticos ou os desafios sistemáticos de apostar no cassino oficial do Estado e sua máquina de arrecadar para o rentismo. Não há o pecado cristão, não há ganância, apenas ter fé e ser, mais ou menos, um sortudo.

Assim como há uma disputa entre o pastor e o padre, também se dá, nesse momento, um embate desses com o streamer e a influencer. São faces da mesma moeda, grandes contendores na venda da esperança, da supressão do vazio existencial cada vez mais desnudado nessa sociedade de consumo. Ambos prometem a catarse do espírito santo, o nirvana, a prosperidade que não se realiza, a salvação da alma.

Esta é a nova religião em vigência frente a uma ansiedade generalizada. Os fiéis dessa seita ou religião não têm arrependimentos. Eles fazem suas orações a qualquer hora e são de todas as crenças — desde que o Pix caia.

Amém.

Wagner Bomfim
12/07/2026

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