A Memória no Balcão de Negócios.
A Memória no Balcão de Negócios

Ao fim da década de 1970, a Bahia se modernizava em vários aspectos e ganhou dois equipamentos públicos que marcaram a vida dos baianos. Encravado no meio do então organizado bairro da Pituba, surgia um altíssimo prédio para abrigar a agência central dos Correios. Ali se postava mais que cartas e mensagens para o mundo; ali se depositavam esperanças e futuros.
No longínquo bairro do Stiep, outro equipamento de linhas arquitetônicas arrojadas surgia para sediar, durante décadas, o Centro de Convenções da Bahia. Negócios, eventos multiculturais, espetáculos cênicos e musicais, dentre outros, alimentaram a economia baiana e o imaginário popular.
Num domingo à tarde qualquer, assistíamos a um duelo de equipes no gramado da antiga Fonte Nova, com uma arquibancada geral dividida entre torcedores do Bahia e do Vitória. Era um templo de emoções coletivas e salutares.
De repente, a memória vai se apagando, assim como os três equipamentos que, pouco a pouco, foram ruindo.
Um deles, de propriedade do governo federal, teve sua função secular paulatinamente substituída por empresas estrangeiras e privadas, com a mensagem de empresa “moderna” e … privada!
Os outros dois equipamentos marcaram gerações. A antiga Fonte Nova, de 1951, após sua completa destruição e a construção de um novo estádio, foi entregue a empresas privadas — inicialmente a uma cervejaria e, recentemente, a uma empresa de apostas.
O Centro de Convenções, de tantas realizações e negócios, foi corroído pelo tempo e pela desídia.
O prédio dos Correios foi vendido pela cifra de 134 milhões de reais; o Centro de Convenções, por 137 milhões; e a Fonte Nova custou ao erário 1,2 bilhão de reais em 2013.
Mais que vender ou terceirizar, vendemos mais que os tijolos e o concreto armado: estamos vendendo toda a nossa história, nossos afetos e nossa cidadania.
Entregamos a Fonte Nova para uma cervejaria e incentivamos o consumo de álcool, cuja patologia -alcoolismo- deságua em nossa rede de saúde já colapsada. Atualmente, o Estado da Bahia entrega esse equipamento a uma empresa de apostas (bet). Torna-se dessa forma, cúmplice desse vício que tanto infelicita as família nessa terrível realidade. Somos hoje estranhos na assepsia da arena de apostas Fonte Nova; pagamos ingressos caros e perdemos o que restava da alegria e civilidade baiana, da diversidade de gostos e paixões.
Em lugar da agência central dos Correios, a Construtora MD impactará o bairro com mais concreto e menos circulação de pessoas. O Centro de Convenções, em ruínas, adquirido pela Pilar Incorporações, outra empresa vinculada aos velhos e novos políticos, em breve, por certo, construirá espigões encravados próximos às suas dunas e a um grande entorno de área verde que poderá também desaparecer.
O que fica no lugar da emoção é o interesse privado, onde o espaço público transforma-se em mero contrato e desvio de finalidade. Perde-se o limite das ações, objetos e finalidades do Estado, sob a lógica da modernização e da eficiência. Não conseguimos, de forma cidadã, preservar esses espaços públicos.
A cidade de Salvador distoa cada vez mais do seu povo, que perde, pouco a pouco, seu pertencimento, sua coletividade, sua baianidade. Há um grande vazio memorial, que se amplia velozmente a cada dia. Ela, a cidade, uma vez privatizada (estádios, centros de convenções, hospitais), ainda consegue abrigar a memória de um povo ou vira apenas um produto descartável?
Wagner Bomfim
20 de julho de 2026.
São os chamados : TEMPOS MODERNOS
Estamos fu…..