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Blog Opinião 25 de julho de 2026

O gol de Zico e a surra de cinto.

O gol de Zico e a surra de cinto.

 

Quando Zico estufava as redes dos times adversários nas tardes de domingo no Maracanã, o Brasil era uma alegria só. Havia contentamento na favela, mais amor nos lares, diria um magistrado, torcedor do América do Rio.

Passados 50 anos da criação de uma música feita por João Bosco e Aldir Blanc, torcedores do Flamengo e Vasco, onde um verso referia sobre uma surra de cinto na mulher após ela comemorar  um  gol, acendeu a discussão sobre a violência contra a mulher. Essa forma  de violência cada vez mais crescente no século XXI, sobretudo em dias de jogos de futebol.

Se a fala do cantor foi gerar comentários para um álbum comemorativo dos seus 80 anos, seus agentes de marketing parece que acertaram em cheio. Ele, João Bosco, sabia que criava um escândalo, bem dosado sob seus acordes refinados. O João, de tosco ele não tem nada!

Na entrevista ao jornal Estadão ele defende a liberdade de expressão, crítica a esquerda por suas críticas identitárias. Fala que os versos criados são pura arte e fala de uma realidade atroz e atual.

O criador de “O bebado e o equilibrista” transitou numa corda só, sobre um terreno pantanoso que a sociedade não quer mostrar. Falaram da música, da arte como um todo? Não! Sobrou apenas a fala intencional, ou não, como escândalo midiático.

As pautas morais e identitárias, importadas da “esquerda” dos EUA, passaram a ocupar as agendas da política brasileira há uns anos. Ora são sequestradas pela direita, que ironiza isso como choro inoportuno, ora defendidas a unhas e dentes por parte da esquerda política suscitando debates acalorados no púlpito do congresso e nas redes sociais.

Essas pautas vão passando aos olhos da sociedade como um gol em câmera lenta, para revelar dados assustadores da barbárie vivenciada pelas mulheres, da violência urbana, da insegurança pela qual vive o país e sem uma efetiva solução do Estado. 

A cada ano aumentam os feminicídios e tentativas de feminicídio no Brasil. Só em 2025 foram 1571 mulheres mortas, a maioria negra e pobres, vítimas de seus parceiros, ex-parceiros e familiares.

Ao referir-se aos versos da canção, mais que um posicionamento político pessoal, João Bosco escancarou a podridão de uma sociedade conservadora, patriarcal, entre tantas chagas entranhadas no comportamento da sociedade escravocrata, que violenta mulheres , que sevicia crianças e outros gêneros além de vulneráveis, cujos tristes números só aumentam.

Zico, se ainda estivesse jogando, por certo marcaria um gol de placa num domingo à tarde ampliando o placar. Que saudade!

O compositor octogenário, ao “ causar “ uma polêmica emplacou um show, um disco de sucesso.

As mulheres, mesmo sem comemorar, estampam as marcas de socos, pontapés e marcas de cintos em seus corpos calejados.

Entre narrativas políticas e verdades adquiridas na volatilidade da internet, fica a pergunta: qual o lado que assumimos quando a dor do outro é apenas uma pauta jornalística?

Os versos estão na pauta musical de Sol. As marcas da violência nos corpos estalam a toda hora, sem Dó.


Wagner Bomfim

25 de julho de 2026

( Dia do Escritor)

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Franklin Passos
Franklin Passos
13 horas atrás

A contraposição entre duas épocas bem distintas, evidenciando o saudosismo das coisas boas versus a incredulidade com a naturalização da violência contra a mulher é sempre bem vinda e desafiadora. Zico arrasava…já João Tosco, não!

Wagner
Wagner
1 minuto atrás
Responder para  Franklin Passos

Vamos em frente, caminhando e cantando!😁

Márcio Campos
Márcio Campos
2 horas atrás

Mais um brilhante texto de Wagner Bomfim. Mostrando a realidade nua e crua da violência contra a mulher e que tem aumentado nos últimos anos. Muito respeitosamente, eu mudaria um pouco o final. “Os versos estão na pauta musical de Sol. As marcas da violência nos corpos estalam a toda hora, em Dó”. Que tal: “Os versos estão na pauta musical de Sol. As marcas da violência nos corpos estalam a toda hora, sem Dó”. Que digamos NÃO a qualquer forma de violência e preconceito!

Wagner
Wagner
19 segundos atrás
Responder para  Márcio Campos

A realidade é cruel para com as mulheres desse país!

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