O MEL e o fel.
O MEL e o fel
(O movimento estudantil na Bahia entre 1978 e 1983).
A Bahia do fim dos anos 1970 ainda tinha o dendê impregnado nas praças, mas havia também o cheiro podre da repressão policial militar que subia pelos becos, se infiltrava nos casarões e se instalava na mesa de jantar. O regime militar falava em “distensão lenta e gradual” com o general Geisel, depois Figueiredo, mas a cordialidade baiana era apenas um verniz escondendo uma estrutura de poder que vinha desde as capitanias hereditárias, agora atualizada pelo governo biônico de Antônio Carlos Magalhães.
O conservadorismo não era apenas político: era existencial. Um acordo tácito entre classes mantinha cada qual em seu lugar. Os senhores na varanda das casas e dos prédios dos bairros nobres, os estudantes nas salas, os subversivos e divergentes políticos nas celas. Gilberto Gil cantava e a gente ouvia: “amigos presos, amigos sumidos assim, pra nunca mais”.
O fel se manifestava de muitas formas. Era a polícia entrando ilegalmente no campus da UFBA ou como letalidade policial cotidiana que imperava nas favelas. Havia o jubilamento arbitrário, fruto de uma reforma de ensino excludente, a censura a toda forma de pensar, o medo que dividia os estudantes entre os que se acomodavam ao silêncio imposto pela Superintendência Estudantil — a juventude protasiana — e os que, na noite, tentavam manter acesa a chama de uma transformação mais profunda, divulgando panfletos e leituras condenadas pelo sistema.
O Restaurante Universitário, no fundo do casarão centenário da Vitória, servia comida de qualidade ruim, escancarando um gesto cotidiano de desprezo do MEC pela permanência de estudantes pobres na UFBA. A Reitoria ignorava as condições estruturais das residências universitárias, deixando a todos sobressaltados sobre sua continuidade. Os agentes da repressão — policiais federais — circulavam entre as carteiras das salas de aula, assim eram percebidos. E no cinema, conviviam Gritos e Sussurros, de Bergman, com Glauber Rocha e Ruy Guerra — a contradição como norma.
Mas o fel mais amargo não vinha apenas da ditadura. Vinha também da esquerda tradicional. A mesma esquerda que se queria revolucionária reproduzia, em seu interior, o culto à disciplina, o apego a fórmulas importadas, a desconfiança em relação ao que fugia ao controle da vanguarda. O sectarismo era seu próprio autoritarismo de bolso. Tudo que escapava ao manual era tratado como desvio ou espontaneísmo. Uma certa esquerda, no fundo, tinha medo da vida, sobretudo aquela que seguia as orientações albanesas e soviéticas.
Foi nesse solo — de repressão e de dogmatismo — que o MEL floresceu. O Movimento de Edificação das Liberdades não nasceu de um estatuto, nem de uma direção central, nem de um programa partidário. Nasceu da efervescência cultural e política que tomava a UFBA. Era um movimento anárquico no sentido mais profundo: recusava a hierarquia como princípio, apostava na autogestão como prática, confiava na criatividade como força política.
Os melistas — prefiro assim chamá-los — desconfiavam dos líderes que falavam em nome das massas. Preferiam assembleias abertas, os debates intermináveis, a construção coletiva de cada decisão. Não separavam a política do cotidiano: lutar pela reforma universitária era tão legítimo quanto lutar pela qualidade da comida no RU. A vida não se dividia entre o que era “político” e o que era “pessoal”.
O MEL trouxe para o centro do debate aquilo que a esquerda tradicional tratava como periférico. Não por modismo acadêmico, mas por experiência vivida. A Bahia, com sua herança colonial, produzia hierarquias que iam além da classe social. O racismo, o machismo, a homofobia não eram acidentes de percurso — eram estruturas que atravessavam o corpo de cada estudante, dentro e fora da universidade. A esquerda tradicional, focada na luta de classes como chave única, não sabia o que fazer com essas questões. Falar de aborto, de sexualidade, de drogas — temas que emergiam da própria vida dos estudantes — gerava tensões profundas. O MEL era o espaço onde estudantes negros podiam falar de sua experiência sem mediação, onde as mulheres denunciavam o machismo que também existia na militância, onde a homossexualidade encontrava um lugar menos hostil para se expressar. Não era uma pauta sobreposta à luta de classes. Era a própria luta de classes em sua concretude — com cor, gênero e desejo.
A imprensa local, especialmente os jornais A Tarde e o Correio da Bahia, mantinha seu perfil conservador e não raro hostil no enfrentamento a esses temas. Mas o movimento criou seus próprios canais: jornais alternativos, panfletos, murais, boletins manuscritos. O Inimigos do Rei foi um deles. Os Poetas da Praça falavam a linguagem antisistema noutro espaço A cultura, para o MEL, não era adereço. Era trincheira. Os shows, as peças, os filmes exibidos nas escolas da UFBa eram ocasiões de expressão fora dos circuitos oficiais. As letras oriundas das músicas burlavam a censura. A poesia e a arte abriam brechas onde a política institucional não chegava.
O final de 1979 marcou um ponto de inflexão. Os estudantes da UFBA, ao perceberem rumores de uma suposta reforma da casa e do restaurante universitário, tomaram a decisão e ocuparam as três residências — Canela, Largo da Vitória e a Residência 1, junto ao RU. A ocupação não foi convocada por nenhuma organização, não atendeu a nenhuma diretriz partidária. Foi espontânea, gestada na insatisfação cotidiana e na convicção de que a autogestão era possível. Por necessidade desse processo de ocupação nasceu a União Livre dos Residentes e Comensais — a ULRC. Esta não era um diretório acadêmico, mas uma assembleia permanente, onde as decisões eram tomadas coletivamente, a comida dividida igualmente, as tarefas distribuídas sem hierarquia. O RU e as residências se tornaram laboratórios vivos de uma prática libertária. Ali surgiu a primeira residência mista da UFBA. Ali se experimentou, na carne, o que significava construir poder de baixo para cima.
Entretanto, esse não foi um processo isento de conflitos. As disputas políticas se expressaram no interior da ULRC e, em certa ocasião, a divergência sobre os rumos da ocupação levou a um confronto que entrou para a história do movimento estudantil da Bahia. Em uma assembleia histórica, membros da corrente política chamada de Viração, pleiteavam assumir o controle da pauta em discussão, gerando um confronto inclusive físico que ficou conhecido como a “Noite das Cadeiras”, quando os chamados “cargófilos” — mais apegados a estruturas de poder tradicionais, bem ao gosto das orientações albanesas — foram afastados pela assembleia, que reafirmou seu caráter horizontal e sua recusa a qualquer forma de tutela. Esse embate marcou uma ampliação da esfera de influência dos “diretores” da ULRC no movimento estudantil para além da UFBA.
Havia um espaço à beira da mata atlântica, junto a um antigo píer de concreto, que foi redescoberto pelos estudantes e largamente usado para sair do ambiente limitado de estudos do casarão. Esse local recebeu o nome de Shangrilá, dada a sua beleza intocada, quase mágica. Ali estava o coração pulsante dessa experiência. Lá se discutia política, se tocava violão, se estudava, lia-se Marx, se dançava. Era o lugar onde a utopia se materializava em gestos concretos, onde a teoria se encontrava com a vida. A elite do Iate Clube da Bahia, ao perceber tamanha experiência, cismava de aproximar suas lanchas e barcos, numa inveja espetacular para tanto privilégio. Conta a lenda que esperavam uma sereia sair das águas mornas e estirar-se sobre as pedras da encosta.
Nessa efervescência de fatos jornalísticos chegou o verão de 1979-1980. Ali ele ficou conhecido como “Verão vermelho” — não por filiação partidária, mas pela intensidade das transformações que os exilados políticos em retorno ao Brasil e a efervescência local trouxeram à cena política soteropolitana.
A ocupação das residências e do RU foi o estopim de mobilizações que sacudiram a UFBA e a cidade de Salvador. Vários artistas, atores e músicos passaram pelo RU, espaço de divulgação de seus trabalhos, mas sobretudo de apoio a um movimento de transformação da dura realidade de estudantes pobres.
Havia, contudo, uma tensão permanente entre a prática libertária do MEL e a esquerda tradicional. Os militantes de organizações mais estruturadas acusavam os melistas de “anarquismo pequeno-burguês”, de “espontaneísmo”, de fracionar o movimento com pautas secundárias. O MEL respondia que a esquerda tradicional, com seu apego à disciplina e à hierarquia, reproduzia em sua própria prática aquilo que dizia combater.
Lembro-me de um jornalista e estudante de filosofia, apelidado de “Major”, que, certa manhã, em pé sobre uma mesa de cimento no pátio da FFCH, fez um discurso antológico de uma hora em defesa da Amazônia. Falou sobre o povo indígena e suas riquezas, e sobre o que o futuro nos reservaria caso não houvesse a eles proteção. Seu discurso foi de uma visão tão ampla que a esquerda convencional não conseguiu acompanhar. Sua fala foi vista mais como um delírio, como uma manifestação esquizofrênica. O tempo deu razão àquela fala — e expôs os limites de certo enrijecimento político.
Poder-se-ia perguntar: quantos membros existiam no MEL? Quem eram as pessoas que orbitavam ao centro de seus membros e de suas mais diversas expressões? Impossível afirmar, dada a fluidez dos trânsitos de pessoas, pois o MEL não era uma estrutura formal, como referido anteriormente. Era como uma corrente de um rio dentro de uma renovação do movimento estudantil. Não há aqui o propósito de estabelecer teses e antíteses do fenômeno, ou o bem contra o mal. Caso o fizesse, cometeria equívocos, por certo!
O MEL, a ULRC, o “Verão vermelho”, o Shangrilá — não estão nos livros oficiais, mas permanecem vivos na memória de quem viveu, nos arquivos de jornais da época, em recortes guardados afetuosamente por muitos militantes. Não foram experiências perfeitas. Foram experiências reais, com suas contradições, seus êxitos e seus fracassos. Mas deixaram uma marca: a de que outra forma de fazer política era possível — mais livre, mais coletiva, mais atenta à complexidade da vida.
O Restaurante Universitário foi fechado violentamente em abril de 1981, com a invasão da Tropa de Choque da PM, a mando do governador ACM.
O casarão da Vitória guarda hoje pouco daquele tempo. Muitos projetos se sucedem para preservação da função social do palacete, com o contínuo desinteresse dos poderes constituídos. A especulação imobiliária tomou seu entorno, o silêncio se impôs sobre muitas vozes. Mas quem conhece as entrelinhas das paredes ainda pode ouvir os ecos do que ali se viveu. Não como nostalgia, mas como memória viva de uma luta que se recusou a separar a revolução da vida.
Wagner Bomfim
13 de agosto de 2026
movimento estudantil na Bahia entre 1978 e 1983
A Bahia do fim dos anos 1970 ainda tinha o dendê impregnado nas praças, mas havia também o cheiro podre da repressão policial militar que subia pelos becos, se infiltrava nos casarões e se instalava na mesa de jantar. O regime militar falava em “distensão lenta e gradual” com o general Geisel, depois Figueiredo, mas a cordialidade baiana era apenas um verniz escondendo uma estrutura de poder que vinha desde as capitanias hereditárias, agora atualizada pelo governo biônico de Antônio Carlos Magalhães.
O conservadorismo não era apenas político: era existencial. Um acordo tácito entre classes mantinha cada qual em seu lugar. Os senhores na varanda das casas e dos prédios dos bairros nobres, os estudantes nas salas, os subversivos e divergentes políticos nas celas. Gilberto Gil cantava e a gente ouvia: “amigos presos, amigos sumidos assim, pra nunca mais”.
O fel se manifestava de muitas formas. Era a polícia entrando ilegalmente no campus da UFBA. A letalidade policial cotidiana imperava nas favelas. O jubilamento arbitrário, fruto de uma reforma de ensino excludente, a censura a toda forma de pensar, o medo que dividia os estudantes entre os que se acomodavam ao silêncio imposto pela Superintendência Estudantil — a juventude protasiana — e os que, na noite, tentavam manter acesa a chama de uma transformação mais profunda, divulgando panfletos e leituras condenadas pelo sistema.
O Restaurante Universitário, no fundo do casarão centenário da Vitória, servia comida de qualidade ruim, escancarando um gesto cotidiano de desprezo do MEC pela permanência de estudantes pobres na UFBA. A Reitoria ignorava as condições estruturais das residências universitárias, deixando a todos sobressaltados sobre sua continuidade. Os agentes da repressão — policiais federais — circulavam entre as carteiras das salas de aula, assim eram percebidos. E no cinema, conviviam Gritos e Sussurros, de Bergman, com Glauber Rocha e Ruy Guerra — a contradição como norma.
Mas o fel mais amargo não vinha apenas da ditadura. Vinha também da esquerda tradicional. A mesma esquerda que se queria revolucionária reproduzia, em seu interior, o culto à disciplina, o apego a fórmulas importadas, a desconfiança em relação ao que fugia ao controle da vanguarda. O sectarismo era seu próprio autoritarismo de bolso. Tudo que escapava ao manual era tratado como desvio ou espontaneísmo. Uma certa esquerda, no fundo, tinha medo da vida, sobretudo aquela que seguia as orientações albanesas e soviéticas.
Foi nesse solo — de repressão e de dogmatismo — que o MEL floresceu. O Movimento de Edificação das Liberdades não nasceu de um estatuto, nem de uma direção central, nem de um programa partidário. Nasceu da efervescência cultural e política que tomava a UFBA. Era um movimento anárquico no sentido mais profundo: recusava a hierarquia como princípio, apostava na autogestão como prática, confiava na criatividade como força política.
Os melistas — prefiro assim chamá-los — desconfiavam dos líderes que falavam em nome das massas. Preferiam assembleias abertas, os debates intermináveis, a construção coletiva de cada decisão. Não separavam a política do cotidiano: lutar pela reforma universitária era tão legítimo quanto lutar pela qualidade da comida no RU. A vida não se dividia entre o que era “político” e o que era “pessoal”.
O MEL trouxe para o centro do debate aquilo que a esquerda tradicional tratava como periférico. Não por modismo acadêmico, mas por experiência vivida. A Bahia, com sua herança colonial, produzia hierarquias que iam além da classe social. O racismo, o machismo, a homofobia não eram acidentes de percurso — eram estruturas que atravessavam o corpo de cada estudante, dentro e fora da universidade. A esquerda tradicional, focada na luta de classes como chave única, não sabia o que fazer com essas questões. Falar de aborto, de sexualidade, de drogas — temas que emergiam da própria vida dos estudantes — gerava tensões profundas. O MEL era o espaço onde estudantes negros podiam falar de sua experiência sem mediação, onde as mulheres denunciavam o machismo que também existia na militância, onde a homossexualidade encontrava um lugar menos hostil para se expressar. Não era uma pauta sobreposta à luta de classes. Era a própria luta de classes em sua concretude — com cor, gênero e desejo.
A imprensa local, especialmente os jornais A Tarde e o Correio da Bahia, mantinha seu perfil conservador e não raro hostil no enfrentamento a esses temas. Mas o movimento criou seus próprios canais: jornais alternativos, panfletos, murais, boletins manuscritos. O Inimigos do Rei foi um deles. A cultura, para o MEL, não era adereço. Era trincheira. Os shows, as peças, os filmes exibidos nas escolas eram ocasiões de expressão fora dos circuitos oficiais. As letras burlavam a censura. A poesia e a arte abriam brechas onde a política institucional não chegava.
O final de 1979 marcou um ponto de inflexão. Os estudantes da UFBA, ao perceberem rumores de uma suposta reforma da casa e do restaurante universitário, tomaram a decisão e ocuparam as três residências — Canela, Largo da Vitória e a Residência 1, junto ao RU. A ocupação não foi convocada por nenhuma organização, não atendeu a nenhuma diretriz partidária. Foi espontânea, gestada na insatisfação cotidiana e na convicção de que a autogestão era possível. Por necessidade desse processo de ocupação nasceu a União Livre dos Residentes e Comensais — a ULRC. Esta não era um diretório acadêmico, mas uma assembleia permanente, onde as decisões eram tomadas coletivamente, a comida dividida igualmente, as tarefas distribuídas sem hierarquia. O RU e as residências se tornaram laboratórios vivos de uma prática libertária. Ali surgiu a primeira residência mista da UFBA. Ali se experimentou, na carne, o que significava construir poder de baixo para cima.
Entretanto, esse não foi um processo isento de conflitos. As disputas políticas se expressaram no interior da ULRC e, em certa ocasião, a divergência sobre os rumos da ocupação levou a um confronto que entrou para a história do movimento estudantil da Bahia. Em uma assembleia histórica, membros da corrente Viração pleiteavam assumir o controle da pauta em discussão, gerando um confronto inclusive físico que ficou conhecido como a “Noite das Cadeiras”, quando os chamados “cargófilos” — mais apegados a estruturas de poder tradicionais, bem ao gosto das orientações albanesas — foram afastados pela assembleia, que reafirmou seu caráter horizontal e sua recusa a qualquer forma de tutela. Esse embate marcou uma ampliação da esfera de influência dos “diretores” da ULRC no movimento estudantil para além da UFBA.
Havia um espaço à beira da mata atlântica, junto a um antigo píer de concreto, que foi redescoberto pelos estudantes e largamente usado para sair do ambiente limitado de estudos do casarão. Esse local recebeu o nome de Shangrilá, dada a sua beleza intocada, quase mágica. Ali estava o coração pulsante dessa experiência. Lá se discutia política, se tocava violão, se estudava, lia-se Marx, se dançava. Era o lugar onde a utopia se materializava em gestos concretos, onde a teoria se encontrava com a vida. A elite do Iate Clube da Bahia, ao perceber tamanha experiência, cismava de aproximar suas lanchas e barcos, numa inveja espetacular para tanto privilégio. Conta a lenda que esperavam uma sereia sair das águas mornas e estirar-se sobre as pedras da encosta.
Nessa efervescência de fatos jornalísticos chegou o verão de 1979-1980. Ali ele ficou conhecido como “Verão vermelho” — não por filiação partidária, mas pela intensidade das transformações que os exilados políticos em retorno ao Brasil e a efervescência local trouxeram à cena política soteropolitana.
A ocupação das residências e do RU foi o estopim de mobilizações que sacudiram a UFBA e a cidade de Salvador. Vários artistas, atores e músicos passaram pelo RU, espaço de divulgação de seus trabalhos, mas sobretudo de apoio a um movimento de transformação da dura realidade de estudantes pobres.
Havia, contudo, uma tensão permanente entre a prática libertária do MEL e a esquerda tradicional. Os militantes de organizações mais estruturadas acusavam os melistas de “anarquismo pequeno-burguês”, de “espontaneísmo”, de fracionar o movimento com pautas secundárias. O MEL respondia que a esquerda tradicional, com seu apego à disciplina e à hierarquia, reproduzia em sua própria prática aquilo que dizia combater.
Lembro-me de um jornalista e estudante de filosofia, apelidado de “Major”, que, certa manhã, em pé sobre uma mesa de cimento no pátio da FFCH, fez um discurso antológico de uma hora em defesa da Amazônia. Falou sobre o povo indígena e suas riquezas, e sobre o que o futuro nos reservaria caso não houvesse a eles proteção. Seu discurso foi de uma visão tão ampla que a esquerda convencional não conseguiu acompanhar. Sua fala foi vista mais como um delírio, como uma manifestação esquizofrênica. O tempo deu razão àquela fala — e expôs os limites de certo enrijecimento político.
Poder-se-ia perguntar: quantos membros existiam no MEL? Quem eram as pessoas que orbitavam ao centro de seus membros e de suas mais diversas expressões? Impossível afirmar, dada a fluidez dos trânsitos de pessoas, pois o MEL não era uma estrutura formal, como referido anteriormente. Era como uma corrente de um rio dentro de uma renovação do movimento estudantil. Não há aqui o propósito de estabelecer teses e antíteses do fenômeno, ou o bem contra o mal. Caso o fizesse, cometeria equívocos, por certo!
O MEL, a ULRC, o “Verão vermelho”, o Shangrilá — não estão nos livros oficiais, mas permanecem vivos na memória de quem viveu, nos arquivos de jornais da época, em recortes guardados afetuosamente por muitos militantes. Não foram experiências perfeitas. Foram experiências reais, com suas contradições, seus êxitos e seus fracassos. Mas deixaram uma marca: a de que outra forma de fazer política era possível — mais livre, mais coletiva, mais atenta à complexidade da vida.
O Restaurante Universitário foi fechado violentamente em abril de 1981, com a invasão da Tropa de Choque da PM, a mando do governador ACM.
O casarão da Vitória guarda hoje pouco daquele tempo. Muitos projetos se sucedem para preservação da função social do palacete, com o contínuo desinteresse dos poderes constituídos. A especulação imobiliária tomou seu entorno, o silêncio se impôs sobre muitas vozes. Mas quem conhece as entrelinhas das paredes ainda pode ouvir os ecos do que ali se viveu. Não como nostalgia, mas como memória viva de uma luta que se recusou a separar a revolução da vida.
Wagner Bomfim
13 de agosto de 2026
