O Fado do Navegante
Fado do Navegante
– Poeta fala sobre a visão após cirurgia no olho-
Sinto-me qual Camões, perdido,
Um pirata sem rumo nem navio,
Por mares e monções conduzido,
Com versos tristes, ermos e sombrios.
Deixei minha amada lá no Porto,
Co’a branca mão, lenços e ais;
Viúva, coitada, de meu desconforto,
Julgando que não voltarei jamais.
A lança que feriu-me o olho
Não dói mais que o cruel tormento
De ter no coração posto o ferrolho,
Nas vagas de tão grande sofrimento.
Ao sabor do vento leste,
Acorrentado ao duro timão,
Passo os dias, triste navegante,
Sob as ordens do feroz capitão.
As vistas, cansadas e ardentes,
E as vagas que me açoitam o peito,
São quais feridas, sempre pungentes,
Lambidas por mar de saudade e despeito.
Tenho a mofina dos que não têm fim,
Que em meu peito faz morada e razão;
E sigo, “sem bater as pernas”, enfim,
Por este mundo de vasta solidão.
Construo um fado, triste lamento,
Para dar resposta à cruel questão:
Se vale tamanha pena e sofrimento
Causar ao peito tão grande aflição.
O poeta, ora, vislumbra e sonha
Um mundo sem mágoa nem desalinho,
E, saindo da sombra que o assombra,
Brinda à vida co’a boa taça de vinho.
Mas entre mares nunca navegados
Em ânsias, paixões e amores
Porquanto sou um reles degredado
A conviver eternamente com essas dores.
Wagner Bomfim
04/09/2026.
