Augusto Cury: estreante e surpresa da eleição, escritor flertou com candidatura à Presidência 17 anos atrás
Augusto Cury lança pré-candidatura à Presidência da República pelo Avante TV Globo/ Reprodução Aos 68 anos e estreante em eleições, Augusto Cury ganhou espaço na disputa pela Presidência e é, no momento, o candidato mais
Augusto Cury lança pré-candidatura à Presidência da República pelo Avante TV Globo/ Reprodução Aos 68 anos e estreante em eleições, Augusto Cury ganhou espaço na disputa pela Presidência e é, no momento, o candidato mais bem posicionado entre os que tentam romper a polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O projeto presidencial agora em curso teve um ensaio em 2009, pelo PV, mas não se concretizou. Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (3) mostrou o candidato do Avante em terceiro, com 8% das intenções de voto, uma evolução de seis pontos desde agosto. Na Quaest divulgada na quarta (2), o escritor também apareceu na terceira colocação, com 10% (tinha 2% na rodada anterior, de 14 de agosto). A alta nas pesquisas vem junto com um crescimento dos números nas redes sociais. O aumento repentino de seguidores levantou suspeitas em campanhas adversárias. Cury nega irregularidades e diz que há uma "revolução silenciosa" que explica o interesse crescente por sua candidatura. Até o momento, não há no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) processos relacionados ao tema. O Índice de Popularidade Digital (IPD) do candidato, calculado pela Quaest em uma escala de 0 a 100, passou de 37,8 para 54,5 pontos. A Justiça Eleitoral permite o pagamento para ampliar o alcance de posts de candidatos, sob regras, mas práticas como a contratação de influenciadores e o uso de perfis falsos ou automatizados (bots) para inflar engajamento são proibidas. Em ato de campanha nesta sexta (4), no interior de São Paulo, Cury disse estar otimista. "Há margem para subir mais nas pesquisas. Já elegi meu adversário no segundo turno: Lula da Silva." O escritor afimou que que, caso eleito, pretende acabar com a possibilidade de reeleição. "Um cargo não pertence a um homem, a um ser humano, nem a uma família. Nem à família Bolsonaro, nem à família Lula da Silva. Todo cargo público pertence a quem? Ao contribuinte, ele é o patrão", declarou. Abaixo, assista à entrevista de Augusto Cury com Renata Vasconcellos e César Tralli: Augusto Cury (Avante) é entrevistado por César Tralli e Renata Vasconcellos; veja íntegra Livros e empresas Cury ficou conhecido como autor de best sellers de autoajuda, rótulo que rejeita. "Esse rótulo é diminuto. Não tenho nada a ver com autoajuda", disse ao jornal O Globo, em 2020. Seu livro mais conhecido é "O vendedor de sonhos", romance lançado em 2008 que virou filme oito anos depois. É formado em Medicina, atuou como psiquiatra e psicoterapeuta e se tornou também empresário. Declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 242 milhões, distribuído entre imóveis, participações empresariais, ações, fundos de investimento, créditos e saldos bancários. A atuação de Cury como empresário se espalhou por diferentes setores. Levantamento do g1 identificou 31 CNPJs ligados ao candidato ou a seus familiares, entre empresas matrizes e filiais, ativas e encerradas, conforme dados da Receita Federal. Além dos negócios nas áreas de educação, treinamento profissional, gestão emocional, publicação de livros e produção de conteúdo, há também empresas no ramo da agricultura, exploração florestal, imóveis, construção e participações societárias. Na Receita Federal, 23 apareciam como ativas: 17 em São Paulo, 5 em Minas Gerais e uma no Piauí. Uma das empresas de Cury, o Instituto Academia de Inteligência, aparece em contratações feitas por órgãos e entidades públicas para palestras do escritor. Quatro registros localizados pelo g1, entre 2010 e 2026, reúnem valores que somam R$ 222.912,32, sem correção pela inflação (leia mais abaixo). Relação com a política Nascido em Colina, no interior de São Paulo, Cury é um dos seis filhos de Salomão Jorge Cury e Ana Regina Brait Cury. O pai do candidato, que morreu em 2024, foi advogado, empresário, produtor rural e vereador. Um dos irmãos do escritor, Salem Jorge Cury, tornou-se juiz federal. O escritor se apresenta como um outsider em relação aos outros candidatos a presidente, porém, a política não é exatamente uma novidade na trajetória dele. 🔎 Na política, outsider é alguém que entra na disputa eleitoral sem trajetória consolidada em cargos públicos, partidos ou na política tradicional. Em geral, se apresenta como uma alternativa aos políticos profissionais e ao sistema estabelecido. Além de ter crescido em uma família na qual o pai exerceu cinco mandatos como vereador em Colina, Cury se aproximou desse universo há 17 anos. Em 2009, chegou a ser filiado ao Partido Verde (PV), que cogitou lançá-lo como candidato a presidente nas eleições do ano seguinte. PV e relação com Marina Silva José Luiz Penna, presidente do PV desde 1999, afirma que a cúpula do partido foi a responsável pela aproximação com o escritor. “Éramos um partido pequeno, com pouco dinheiro, e precisávamos de um ativo, alguém que atraísse eleitores, para ser o candidato à Presidência. Ele sinalizou que tinha interesse, mas em seguida Sarney Filho convidou Marina [Silva] e ela foi a candidata”, afirmou Penna ao g1. O escritor foi então convidado a contribuir com a elaboração de um programa de governo para Marina, com atenção especial para a área da educação. Cury foi chamado por parte da imprensa de "guru" da ex-ministra, que já era leitora dos livros dele, mas rejeitou essa definição. "A maneira como a história saiu nos jornais me deixou constrangido. Não é verdade que eu seja guru de Marina. Sou apenas um amigo que torce por ela", disse ele em reportagem publicada pela revista "Trip", em julho de 2010. O PV chegou a sondar Cury sobre a possibilidade de disputar outros cargos, mas, segundo Penna, o médico só demonstrava interesse em uma candidatura a presidente. A aproximação com a política não avançou naquele momento, e Cury voltou a se concentrar nos livros e nas palestras. Em vídeo publicado nas redes sociais, uma das filhas do candidato, Claudia Cury, conta que, em 2010, o pai revelou à família o desejo de presidir o país, mas a ideia não foi bem recebida pelos familiares. Entre as propostas defendidas por Cury naquele período estavam tornar profissionalizante todo o ensino médio, levar o ensino universitário à distância para municípios com mais de 10 mil habitantes e mudar a disposição das carteiras nas salas de aula para o formato de “U”. Mais de uma década depois, parte das ideias reaparece, com outras formulações, em seu programa de governo de 2026. Cury mantém a defesa de uma maior integração do ensino médio à formação técnica e profissionalizante. A proposta de reorganizar fisicamente as salas de aula não é mencionada no documento atual, mas deu lugar à defesa de um modelo de ensino menos expositivo, no qual o professor deve estimular perguntas, desafiar os alunos e incentivar a participação em sala. O ex-deputado Walter Feldman, que coordenou a campanha de Marina Silva à Presidência em 2014, disse ter se encontrado algumas vezes com Cury, que apoiava a então candidata. Ele descreveu o escritor como “um cara boa praça”, com jeito de “paizão” e muito preocupado com questões sociais. “Esse jeito ponderado dele, na minha opinião, é o que chamou a atenção principalmente no debate da Band [de 2026, o primeiro da campanha presidencial]. Conseguiu impactar por não adotar o jeito agressivo de candidatos como Renan Santos e por ter um discurso mais moderado que o de Caiado”, afirma Feldman. Empresas e contratações públicas No âmbito empresarial, dos quatro registros de contratações públicas localizados pelo g1, o mais recente e de maior valor é do Conselho Federal de Contabilidade. Em março, o CFC contratou o Instituto Academia de Inteligência por R$ 110.436,23 para intermediar uma palestra on-line de Cury intitulada “Liderança e Gestão das Emoções”, durante o Seminário de Gestão do Sistema CFC/CRCs. Em 2023, a Prefeitura de Ourinhos (SP) contratou por R$ 63.931,81 uma palestra intitulada “Pais Brilhantes, Professores Fascinantes”, apresentada durante o Seminário Anual do Magistério. A contratação direta foi feita por inexigibilidade de licitação. Os outros dois registros são mais antigos. Em 2011, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), no Rio de Janeiro, pagou R$ 19.700 ao Instituto Academia de Inteligência por uma palestra destinada ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica. Em 2010, a Prefeitura de Candeias (BA) contratou Cury, por intermédio do instituto, por R$ 28.844,28, para abrir uma jornada pedagógica da Secretaria Municipal de Educação. Somados, os quatro registros chegam a R$ 222.912,32 em valores nominais, sem correção pela inflação. Os documentos consultados não apontam irregularidades nas contratações. Fora do segmento educacional, os negócios ligados a Cury ou a familiares dele incluem atividades como o cultivo de laranja, cana-de-açúcar e soja, a produção de eucalipto, a exploração de espécies madeireiras, o aluguel de imóveis, a construção e a administração de participações societárias. Dos 23 CNPJs que apareciam como ativos na base consultada, 17 estavam registrados em São Paulo, nos municípios de Ribeirão Preto, Dumont, Colina, Araraquara e Paranapanema, além da capital. Outros cinco estavam em Minas Gerais, nas cidades de Prata, Riachinho e Bonfinópolis de Minas, e um estava registrado em Canto do Buriti, no Piauí. Sete CNPJs identificados pertencem à Filadélfia Nature Participações e Empreendimentos, entre a matriz e seis filiais. Em 2025, o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais indeferiu integralmente um pedido da Filadélfia Nature para cortar 233 árvores nativas isoladas na Fazenda Serra Branca. Segundo o parecer técnico, a intervenção descrita no pedido já havia sido realizada, com a retirada de árvores sem autorização do órgão ambiental competente. No ano anterior, o mesmo órgão havia negado outro pedido da Filadélfia Nature para suprimir 994 hectares de Cerrado em uma área classificada como de prioridade extrema para conservação. Construção da candidatura em 2026 Na avaliação de interlocutores de Cury, o convite do Avante foi visto pelo escritor como uma oportunidade de colocar em prática ideias que já discutia desde a primeira aproximação dele com a política. Em entrevista à Globo, na semana passada, Cury afirmou que entrou na disputa para “pacificar esse país” e definiu assim seu posicionamento: “Minha mente é capitalista, meritocrática, defende um Estado enxuto, responsável fiscalmente e o empreendedorismo. Mas o meu coração é um coração social, que escuta a dor humana." Nos bastidores, Cury tem se aproximado de nomes e articulações da centro-direita. Antes de definir sua candidatura em 2026, o escritor conversou com políticos experientes, entre eles o ex-presidente Michel Temer, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e o deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG). A candidatura acabou abrigada pelo Avante. O partido, apesar de ter uma bancada pequena na Câmara, deu a Cury uma estrutura eleitoral que outros candidatos que tentam ocupar o espaço da chamada terceira via não têm, como acesso ao fundo eleitoral e ao horário eleitoral. Para compor a chapa, escolheu como vice o ex-deputado federal Júlio Delgado, político mineiro com longa trajetória que chegou a disputar a presidência da Câmara. Delgado também já foi filiado ao PV. Proposta sobre telemedicina Uma das propostas de Cury para a saúde se tornou alvo de questionamentos durante a campanha. O candidato defende ampliar o uso da telemedicina no sistema público de saúde como forma de desafogar o SUS. A proposta, porém, chamou atenção por uma ligação anterior do escritor com uma empresa que atua no setor: até 2023, Cury aparecia como sócio da companhia e foi apresentado como embaixador da empresa. Durante entrevista à Globo, Cury foi questionado se a defesa da ampliação da telemedicina poderia representar conflito de interesses. O candidato negou e afirmou que não mantém mais relação com a companhia. Segundo ele, a experiência anterior com o serviço, na verdade, ajudou a mostrar que a tecnologia pode ser aplicada de maneira eficiente e com baixo custo. Em uma licitação pública disputada pela Click Life em 2025, o menor preço oferecido pela empresa não foi suficiente para garantir a contratação dela. O pregão havia sido aberto pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), órgão que oferece atendimento de saúde aos servidores estaduais de São Paulo e dependentes, para contratar serviços de teleassistência destinados a pacientes com transtornos mentais e comportamentais. A Click Life foi desclassificada por não atender à exigência de uma certificação de Nível 3 da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), selo técnico que comprova que o sistema de prontuários eletrônicos cumpre requisitos de segurança e funcionamento para consultas à distância. A companhia questionou a decisão na Justiça e tentou suspender a homologação da licitação e impedir a contratação da vencedora. A liminar foi negada, e o TJSP rejeitou por unanimidade o recurso da Click Life, em fevereiro de 2026. O mandado de segurança principal, porém, ainda tramita. Na entrevista, os apresentadores disseram a Cury que o site da empresa ainda o apresentava como embaixador. “Então tem que tirar rapidamente”, respondeu. Em seguida, reiterou que não ocupa mais a função: “Não sou mais embaixador, eu sou alguém que tem experiência porque sou empresário." Cury afirmou ainda que a informação seria retirada “imediatamente” e defendeu que a expansão da telemedicina poderia ajudar a “desafogar o SUS”. Carreira como escritor A carreira como escritor começou oficialmente em 1998, quando Cury publicou “Inteligência Multifocal”, seu primeiro livro, depois de ter originais recusados por editoras. Em 2011, ele já havia publicado 28 obras em 13 anos e mantinha um ritmo de pelo menos dois lançamentos por ano. Em 2016, um levantamento da revista "IstoÉ" apontava que Cury havia vendido 28 milhões de exemplares ao longo da carreira e que nenhum autor brasileiro havia vendido tantos livros no país na década anterior. Em 2017, segundo dados da Nielsen, Cury foi o autor brasileiro que mais vendeu livros no Brasil naquele ano. Seu maior sucesso, “O Vendedor de Sonhos”, foi adaptado para o cinema, em filme dirigido por Jayme Monjardim e estrelado por César Troncoso e Dan Stulbach. Outros títulos de destaque incluem “Ansiedade”, “Pais Brilhantes, Professores Fascinantes”, “O Código da Inteligência” e “Você é Insubstituível”. O site oficial de Cury afirma que as obras dele são publicadas em mais de 70 países e que ele ultrapassou a marca de 42 milhões de exemplares vendidos.