Vaidade, caráter e vazio.
“O touchscreen iluminou a noite
O telos moldou-se aos poucos
À sua semelhança e bestialidade.”
As academias de ginástica espelham não só corpos sequiosos de saúde, mas, sobretudo, a vaidade além da virtude, do equilíbrio.
Há um comportamento clássico inicial de buscar uma indumentária, principalmente entre mulheres, que evidenciam suas curvas, saliências e reentrâncias, para serem devidamente expostas e consumidas ao olhar de aprovação do outro, do mais próximo.
A vaidade, não como um defeito grande ou pequeno, mas “essa coisa que mete medo”, que vai moldando comportamentos e se mistura muitas vezes com coisas mais sólidas como o caráter de cada um.
O limite entre o cuidado corporal faz parte da necessidade precípua da convivência, do habitar em padrões sociais, do regramento, diria, até civilizatório.
O ponto que separa essa vaidade da necessidade de sustentar-se num modelo é que se torna um problema. Sem isto, há um desmoronamento de si próprio.
Esse problema é que a imagem passa a sustentar o sujeito(a) e ambos passam a trabalhar exclusivamente para a construção de uma imagem.
Nesse momento, o caráter se intromete e vai se ajustando ao dia a dia. Com isto, histórias ganham coloridos inexistentes, as narrativas passam a ter uma carga beirando a artificialidade.
Aquela entrada triunfal no salão, seguida de uma sessão de selfies no mesmo rosto e cabelos deslocados por milímetros, destacados por lábios em “biquinhos” no caso das mulheres ou no estufar do peitoral por homens, assusta até o Gato de Cheshire (o gato de Alice no País das Maravilhas), numa busca desenfreada por atenção, num caminho enigmático, ilusório.
O filósofo da liquidez, Zigmund Baumam, poderia chamar de amor líquido aplicado a si próprio(a), onde isso é apenas um perfil editável, que se descarta, restando pouco mais que uma longa sequência de poses artificiais distantes da essência. Esta, porém, cheia de vazios. É como uma casa cheia de móveis, coisas dispersas, sem aquela coisa chamada calor humano, alma.
Byung-Chul Han, filósofo coreano descreve a atual sociedade da informação como “ cluster de egos isolados “ com uma imensa necessidade de exposição para enfrentamento desse vazio, para performance, aquisição de curtidas e likes que duram poucos minutos.
Desse processo resulta que somos belos ou caricatos. Insuportável não é ser reconhecido como feio. Insuportável e não ser visto, não ser consumido.
Esse processo delicado expõe muitas vezes pessoas que são admiradas, respeitadas, até colocadas como referência, sobretudo no âmbito profissional. A medida dessa vaidade e falo além do aspecto físico e sim da virtude é de difícil mensuração, posto que pode haver uma espécie de dependência, uma necessidade de confirmação alheia. Na ausência presencia-se incômodos, irritação, posturas antiéticas e mesquinhas como forma de compensação por supostos prejuízos materiais ou afetivos.
Das coisas mais belas e mais justas, o mais desejável é ser saudável ;
Mas o que o mais prazeroso é o que nasce daquilo que ao acaso se ama.
Aristoteles. Ética a Nicômaco, pág.30.
De forma aristotelica poderíamos dizer ser a temperança o balanço entre o narcisismo e a fome de curtidas, likes e reconhecimentos. O bom combate entre o amar-se na dose do ser feliz e menos consumir-se como produto ou deixar-se controlar pela mesquinhez espiritual. No seu descompasso a vaidade vai corroendo o caráter, como um vidro fosco onde não se enxerga o outro lado da janela, onde se perde a origem de suas escolhas, restando tão somente um enorme vazio.
Wagner Bomfim
24/04/2026.
