Há uns dias, li o conto de um autor italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris, e percebi haver perdido a noção de quanto tempo passei ali. Não por serem muitas ou poucas páginas, mas o tempo, de repente, não importava. A sensação que tive ao terminar, era de quem volta de uma viagem sem saber direito onde esteve, apenas que esteve longe. Pois é. A literatura tem esse dom de nos colocar noutra esfera da existência, essa mania de nos tirar do tempo sem aviso prévio. Entretanto, ninguém lê no presente, ou muito pouca gente o faz. Quando lemos, estamos sempre um pouco fora do agora, num instante que o livro criou e que não tem hora para acabar. O presente da leitura é um presente, diria, até ilusório: ele já passou quando o percebemos.
Confesso aqui: não sei exatamente o que é “o momento da literatura”. Como ela se inscreve no plano mais geral da expressão formal ao nível nacional e mesmo no resto do mundo. Mas sei que já senti esse momento algumas vezes. E geralmente acontece quando menos espero — em um horário indefinido, em pleno corre-corre das atribuições do dia, num intervalo entre demandas do trabalho. É como se a página de um livro funcionasse como um portal e eu fosse tragado como um túnel do tempo.
Esse momento, percebo, não pertence a um gênero fixo nem a uma escola literária, vez que costumo ler indistintamente quase tudo, até obituários de jornal. Ele pode acontecer diante de uma prosa fragmentada em cortes, elipses, como em Rubem Braga que lia outro dia na ante-sala de um consultório, ou uma colagem, se é que assim posso acreditar, na poesia completa de Cacaso, visto num poema que diz:
célula mater
[Para Roberto Schwarz]
Unidos
Perderemos.
(Cacaso, 2020, p. 180), ou em;
história contemporânea
O futuro não tem.
Futuro.
(Cacaso, 2020, p. 305).
Essa é uma escrita que parece ser preenchida por espaços em branco, que exige que o leitor preencha as lacunas com sua inquietação, seu próprio julgamento. Noutro momento, tipo leitura de conto breve, daqueles que cabem no bolso, pode-se sentir esse calor que vem aturdir à cabeça.
Um outro encantamento, dos últimos anos é o que acontece na volta da narrativa linear em certas vertentes periféricas e testemunhais, a exemplo de Conceição Evaristo, que se nos apresenta em seu romance, Becos da Memória, uma linguagem direta, ambientada na sinuosidade do seu conteúdo, do espaço geográfico da favela de onde brotou essa preciosidade literária.
O Quarto de Despejo, outro trabalho de igual magnitude, publicado por Carolina Maria de Jesus, por exemplo, retoma o fio da história, não por inocência, mas por necessidade, como quem justamente, precisa contar o vivido para não apagar. A contracapa desse título já nos conduz para um cenário de “literatura-verdade“ , de uma crua realidade dos invisíveis ali retratados, seres que o país insiste em não enxergar.
Aprofundando aqui minha inquietação, aponto o hibridismo entre prosa e poesia, ou mesmo um ensaio que logo vira ficção, aqueles textos que desobedecem à sua própria classificação na contracapa desses livros, visto ser oportuno o resgate da memória ancestral indígena e afro-brasileira, com livros que tomam as religiões de matriz africana como estrutura narrativa; não como exotismo, mas como cosmovisão inteira. Nessa vertente destaco o acadêmico Ailton Krenak contrapondo-se ao modelo e estilo de vida imposto pelo homem branco europeu, por séculos sustentado no extermínio de outros humanos e todo o bioma que o cerca. Assim, podemos mais que nos deleitar, mas fazermos a escolha do que é mais sagrado – a perpetuação da espécie ou a supremacia do Deus mercado.
Essa vertente de literatura parece ser pensada para voz, para oralidade, como expressão de espaços sacralizados, vozes que se ampliam em direção à rua. Essa última talvez seja a mais antiga de todas: a palavra dita antes de ser escrita, a história passada adiante como matéria viva e aí convergimos com as expressões do rap, da cultura nua e crua da urbanidade pop, presente nos guetos, bem como nos batidões suburbanos.
Nas vitrines das livrarias, o que vejo atualmente é uma literatura atravessada por urgências. São temáticas que transitam entre a violência de Estado, o racismo estrutural, o encarceramento em massa de homens e mulheres e o sistema penal como máquina de aniquilamento. Contrapondo-se a esse cenário, a literatura filosófica de Márcia Tiburi tem o condão da denúncia, da resistência, assim como visto na análise filosófica do Brasil por Jessé Souza em novo paradigma sobre o que e o homem brasileiro de ontem e hoje.afirmativamente dissecando as rsuzes
Ao mesmo tempo, nessa pluralidade de temas também se encontra espaço para questões como saúde mental, solidão no estágio do capitalismo tardio, pautado no trabalho precário e na moradia instável. Esse cenário diria , distópico, faz despejar um amontoado de títulos caracterizados como de auto ajuda, que considero, não se inscreve no “ momento da literatura” brasileira.
Há algo de comovente, mas também de aterrorizante, em ver livros que abordam aplicativos de relacionamento e intimidade digital. Conheço pessoas que se enamoram e mantêm vida sexual virtual há anos. Ai, eu e a literatura começamos a perguntar: o que é um corpo quando ele pode ser apenas imagem? O que é o amor quando ele nunca toca? Como essa virtualidade impregna nossos sentidos e possibilita ser um fio condutor que nos coloca frente ao “ túnel do tempo” como se pode sentir em desbulhar das páginas de Salvar o Fogo, de Itamar Vieira Júnior?
Difícil resposta. Nessa viagem, busca da melhor expressão do momento, não poderia esquecer, ainda, a autoficção periférica, a poesia de Helena Kolody, paranaense, que vem transitando desde o fim do século passado até o presente tendo o “eu” como testemunha, não narcisista. Um eu que não se contempla, mas que se usa como ponto de escuta. É a reescrita da história oficial pelo corpo ferido — e, por isso mesmo, um corpo que insiste em narrar. Menos nua, é verdade, menos concreta por certo, quando comparado aos versos abaixo;
como ficou chato
ser contemporâneo
serei instantâneo
agora
como ficou chato
ser instantâneo
serei um autômato
agora
ae10-i6-o16-u4
c7-f2-gh2-m5
n8-p1-r7-s6-t9
André Vallias
publicado na Antologia Incompleta da Poesia Contemporânea Brasileira, organizada pela poetiza e cantora Adriana Calcanhoto.
Testemunhas de um tempo própria da ditadura e posterior a esse aprisionamento ali se pode perceber, as tensões internas do momento dessa literatura que pretendo discorrer. Essa pretensão, entretanto, não é pacífica. O que chamo de “momento da literatura” está atravessado por tensões que talvez sejam produtivas, mas nem por isso menos dolorosas. Dentre estas poderia citar a fragmentação versus a necessidade de narrativa linear. Como maneira de corromper a tradição do rompimento formal, amplamente discutida por Marcos Bagno, em seu Preconceito Linguístico, contrapondo-se com a formalidade herdada das vanguardas. Essa fragmentação convive com a busca contemporânea por histórias que possam ser contadas sem rodeios, sem meio termos, como se o leitor precisasse de um fio para sair da caverna no enfrentamento ao Minotauro, para não se perder no próprio caos.
Outra tensão que identifico é a urgência política em oposição à invenção formal. Há uma pressão, legítima, para que a literatura dê conta das feridas abertas do presente, já citado em Tiburi e Souza. Mas há também o risco de que esse modelo de literatura, sua forma, se torne mero veículo, e não experiência a ser vivenciada. A literatura política que li recentemente não abria mão da denuncia, do ritmo inesperado, da palavra que choca. Antagonicamente ao choque da palavra, nos deparamos com a literatura de mercado e da literatura que chamaria de fast. A exposição e competição por prêmios, pela participarcao em editais, inscrever-se na redes sociais, participar de clubes de assinatura; tudo empurra o livro para a velocidade do consumo. Mas o “momento da literatura” de que falo, penso, exige lentidão. Exige ler o mesmo parágrafo tantas vezes quanto necessário. Voltar ao capítulo anterior numa degustação sensorial inaudita. Exige ficar em silêncio depois da última página. Isso é quase um contrassenso cultural hoje, esbarra na velocidade do consumo capitalista.
Outro aspecto que identifico na literatura é a capacidade de impregnacao, de absorção cognitiva da leitura em oposição a experiência privada. As leituras curtas, as resenhas minúsculas adstrita a uma página, de leitores que posam com livros como acessórios descartáveis. Nada disso é inerentemente mau, pernicioso, pode até difundir leitura. Mas o momento de que falo é daquele silencio, de uma espécie de cena que acontece sem holofotes, em que você e o personagem principal, que não se filma.
No presente, penso ser difícil nomear esse “momento” ou mesmo admitir que não dá para nomear. Críticos, acadêmicos, editais para o fim do mundo, tudo pede definições. Mas talvez a literatura seja exatamente o que escapa à definição. Talvez o “momento da literatura” seja, por definição, o que não se pode fixar, um transito entre o enlevo e o sal como expresso nesses versos:
A palavra se choca no papel
Uma,duas, três
Infinitas vezes
O trabalho inacabado
a mão calejada
um monólito
a lapidar
amanhã o suor
o sal
inventarei o mundo.
(BOMFIM, W.)
Atinjo aqui ao ponto frágil dessa narrativa, mas creio necessário. Ao tentar dar conta do “momento da literatura” posso perfeitamente acabar deixando algo de fora, com ou sem intencionalidade.
Sem qualquer rigor académico creio que fica de fora o inesperado: o livro que não se encaixa em tendência nenhuma, adquirido por um sebo, um titulo por uma indicação oral, como recebi outro dia de uma amiga acerca de um pensamento filosófico de M. Alcoforado, por acaso. O que pode não dialogar com ” momento” mas que, lido hoje, ilumina o momento de outra maneira.
A sensação de ler e perder a hora como referido e’ uma sensação que nao se pode colocar numa linguagem matemática, nao ē redutível a simplórias análises como as expostas. Creio ser tão somente a minha visão, torta, também de momento, verdadeiramente pessoal.
Para outros leitores que nao sabem definir o momento mas sabem quando sentem, temos algo em comum Aquela pessoa que entra numa livraria sem saber o que procura, que pega um livro atraído pela capa ou pela primeira frase, que se deixa levar. Esse leitor não vai aparecer em estatística de mercado nem em gráfico de vendas, somos eu e ele a razão pela qual a literatura ainda acontece.
Nao sei exatamente o que é “o momento da literatura”. Sei que, quando ele vem, o tempo desacelera, perde a força. Sei que esse momento não esta afeito a qualquer tipo de controle. Sei que pode estar num conto de três páginas ou num romance de quinhentas. Sei que pode estar num texto escrito há cinquenta anos ou apresenta ainda os vestígios de tinta gráfica.
Talvez o momento da literatura seja apenas isso: um pequeno deslocamento na relação tempo/espaco, onde a linguagem, pode recriar o mundo sem a premência da volatilidade. E o leitor, sem sair do lugar, faz uma longa viagem.
Wagner Bomfim
