A memória preservada.

A memória preservada 

A recente medida do Conselho Estadual de Cultura estabelecendo o tombamento do palacete que abriga a Academia de Letras da Bahia, na Avenida Joana Angélica, reacende a discussão sobre a preservação de monumentos, praças e imóveis que caracterizam a memória ainda viva da cidade de São Salvador.

Esta notícia é merecedora de aplausos, mesmo tendo demorado longos dez anos para sua aprovação pelo referido Conselho.  

Num momento em que Salvador sofre sucessivas intervenções urbanas promovidas pelos governos municipal e estadual, a proteção de um edifício histórico representa um raro gesto de respeito à memória da cidade. 

O velho palacete, com sua arquitetura clássica e sua história, integra formalmente o patrimônio cultural da cidade.

Entretanto, a celebração desse feito, que aguarda sua publicação em Diário Oficial, não nos exime de uma reflexão incômoda.

Se, por um lado, preserva-se um imóvel emblemático, por outro, a própria cidade continua submetida a um processo silencioso e contínuo de descaracterização. Todos os seus rios encontram-se poluídos, praticamente inexistem praças, a orla marítima é “seca” e sem ambiência humana.

Este é o retrato silencioso da desídia dos gestores públicos. A história não habita necessariamente apenas nos edifícios. Tomando como exemplo o Centro Histórico de Salvador, estendendo-se até a Baixa dos Sapateiros,  vê-se o retrato fiel do esquecimento, levado a efeito por medidas eugenistas implementadas desde o século passado e mantidas pelos governos atuais.

A memória, expressão maior de seu povo, também está nas árvores antigas, nas praças, nos largos, nos rios que ainda resistem e na relação harmoniosa entre a paisagem natural e a arquitetura. A ambiência urbana, esse bem decantado pelos arquitetos, coitada, inexiste ou está severamente ameaçada.

Salvador tem sofrido ao longo dos anos com intervenções promovidas pelos poderes públicos, quase sempre justificadas pelo discurso da modernização ou da mobilidade urbana, reduzindo áreas verdes, impermeabilizando o solo, canalizando antigos cursos de água, eliminando árvores antigas. Tudo isto acaba proporcionando um cenário asséptico, produzindo uma paisagem cada vez mais padronizada e distante de sua identidade histórica. 

Se a construção da metrópole Salvador teve como uma das suas estratégias dos invasores portugueses, no caso o controle sobre as águas, o que temos hoje são pequenos rios que desaparecem sob o concreto, praças que perdem seus jardins e monumentos. Os espaços  públicos tornam-se pouco a pouco extensões de estacionamentos ou corredores de circulação apressada.

A cidade de Salvador preserva monumentos isolados, e nas zonas nobres, porém, só as fachadas resistem, na tentativa de dar um ar de nobreza a novos ricos dessa grande e conflituosa metrópole. Ela progressivamente perde o encanto, a beleza, todo o sentido de humanidade que deveria existir. 

De pouco adianta tombar um palacete se o entorno urbano é transformado em um ambiente hostil, árido e indiferente as necessidades de seus cidadãos. O valor cultural deve existir em conjunto com todo o ambiente que o cerca e sobretudo atender ao cidadão, razão de ser da metrópole.

O palacete que abriga a ALB deve ser um exemplo de interação com a paisagem, com a vegetação, com a topografia, com os percursos e com as memórias afetivas que se formam ao seu redor. Ele deve ser muito mais que espaço de erudição, deve ser um forte de defesa, através da cultura, dos interesses citadinos. Quando esses elementos desaparecem, preserva-se a peça, mas compromete-se a obra. 

Exemplo disto é o Corredor da Vitória, outrora uma das vias mais belas da cidade que vem atravessando há décadas um processo de verticalização, de descaracterização que lhe compromete a dita ambiência. 

Talvez o maior desafio contemporâneo de Salvador não seja apenas salvar edifícios históricos, mas preservar a própria experiência urbana da primeira capital do Brasil.

Uma experiência feita de história, lutas, trabalho e resistência do seu sofrido povo.

O tombamento da sede da Academia de Letras da Bahia é uma vitória, sem dúvida. Contudo, será uma vitória incompleta se continuarmos assistindo à destruição cotidiana da paisagem urbana, do patrimônio ambiental e da ambiência que fizeram de Salvador uma das cidades mais singulares do país. Afinal, a memória não reside apenas entre quatro paredes, sobretudo quando muitas delas encontram-se em ruínas. 

A escolha está posta: preservar e viver a cidade em sua plenitude ou continuar sacrificando sua memória em nome de uma modernidade frequentemente efêmera. 

Wagner Bomfim 

04 de junho de 2026.

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  1. Adyla Ramos em 6 x 1
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